quarta-feira, agosto 22, 2012

A despedida

Falar debaixo de água, buscando múltiplas vias de comunicação, interlocutores vários, embora em quantidade reduzida, e influentes. A Sra. Dra. Sacha, o Sr. Cavaco e Silva, o amigo e psicólogo Afonso. A solidão, profunda, disfarçada pela companhia num mundo subaquático. O nada, travestido de ideia exuberante. A certeza da traição, a dúvida na confiança. O desligar do pouco que se mantinha conectado. Solicitam-se remendos para o irreparável.
A história é a de um homem, vivido, e a morrer, actualmente, numa pensão, numa zona em frente à estação de comboios. Ponto de chegadas e partidas, covil para os negócios e transacções de produtos da noite, envolvendo, entre outra gente, pessoas marcadas pela temporalidade da necessidade e da gratificação imediata. A pensão tinha bichos que se escondiam, conta este homem. Os bichos que lhe envenenaram o sangue. O sangue por sua vez, tendo em conta que está doente, tem-se deixado esvaziar. “Preciso de ir ao hospital buscar sangue novo para substituir este”. “Estou à espera que me venham buscar do hospital para me operarem”. Sempre à espera que alguém apareça para o cuidar. O homem, quase sem nome, tinha, segundo ele, a perna partida. Antes de falar debaixo de água, contudo, referia que o seu problema era na anca. Estaria, já naquele tempo, à espera de uma operação muito arriscada que envolveria a possibilidade de ficar sem conseguir andar. Estava, no entanto, disposto a correr esse risco. “Porque viver assim não vale a pena.” O homem F. (é estranho, mas não me apetece dar-lhe um nome fictício. Seria, para mim, doloroso. Sentir-me-ia a passar uma borracha nessa réstia da sua própria humanidade) andava de muletas. Vestia, frequentemente, uma t-shirt vermelha do instituto de socorros e náufragos. Os seus olhos, enquanto se deixam pousar, são castanhos e, parece, ainda levam ao coração (?). Tenho dúvidas, no entanto. O som do seu andar “Tac, Tac” corresponde ao bater da muleta, também ela sem protecção entre o metal da sua base e o chão. Se desse para ouvir um “Tic” entre aquele bater, diria que era o som de um relógio em contagem decrescente, “Tic Tac”, e que o homem F. aguardava, entre conversas debaixo de água e uma esperança delirante, que chegasse o comboio para o levar daqui. Diria que, pelo seu sofrimento e processo de desligamento, o comboio estava atrasado. O homem ia vivendo (morrendo). Da sua história, pouco sei. Humilde, no contacto. Fala de uma sobrinha por quem nutre algum afecto. Pouco mais. Antes de se transformar numa espécie de Aquaman, vivia numa casa partilhada por outras pessoas que terá transformado em objectos persecutórios. Acabou transferido para uma pensão. Às vezes, quando come, diz que a comida desaparece assim que a ingere e que não fica nada dentro de si. Vai almoçar a uma cantina social. Vagueia entre instituições de cuidados de forma alheada. Tem 45 anos de
tentativa de vida. Talvez esteja a ser consumido pelas consequências desta. Talvez se resigne a uma (des) existência precária. Talvez não haja solução. A dissolução das partes intactas da mente, tal e qual o método utilizado por um centro de abate de veículos com as peças de um automóvel em fim de vida, talvez surja como a única via de (tentar) remendar o irreparável, e prover a ilusão de que alguns daqueles bocados de mente ainda possam ser salvos… ou, simplesmente, possam ir morrendo, sentindo-se menos sós.


Solicitam-se remendos para o irreparável.

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