segunda-feira, dezembro 17, 2007

Aprendi...

Aprendi, há muito tempo, que as coisas não são como nós queremos. São, sim, como podem ser. Quando era pequeno, odiava que fosse assim. Hoje, adulto feito, continuo a não gostar. Agora, contudo, já não preciso de guardar o desespero para mim, nem, tão pouco, de fingir que está tudo bem. Neste momento, já posso dizer “não gostei”, “não gosto que seja assim”, “não quero que isto aconteça”, e, mediante as coisas que estiverem em causa, umas mutáveis, outras, nem por isso, sigo a minha vida, o meu caminho. Como nas partículas elementares, caminho imprevisível, mas o único que, feitas as contas, irei percorrer.
Disseram-me, no outro dia, alguém, citando o primeiro ser humano que se dedicou ao estudo da física quântica, que a natureza era absurda. Ora, consultando os sinónimos, bem pertinho, sem recorrer a qualquer dicionário em suporte de papel, absurdo pode ser sinónimo de ilógico, contraditório, paradoxal, inconsequente, incongruente, contraproducente, despropositado, disparatado. A natureza assim será, tal como a natureza humana, que, indubitavelmente, aí está integrada. Então, que caminho é que poderemos percorrer? O caminho da ignorância, com certeza. Quer dizer, o caminho do conhecimento. Mas, como fazê-lo? Se cada partícula tem um caminho idiossincrático, como traçar as rotas do ser humano, composto por uma imensidão de partículas, um infinito integrado de forças, que actuam muitas vezes em “direcções opostas”?
Explicaram-me que, na física, se colocarmos dois fios com corrente eléctrica em sentidos opostos, devido aos seus campos magnéticos, eles tendem a afastar-se. Pelo contrário, se os fios seguirem na mesma direcção, eles tendem a aproximar-se. Ora, pensei eu, é como nas pessoas. Nestas, todavia, a quantidade de “fios”, tendências, forças, desejos, serão, certamente, incontáveis. Mas, nas pessoas, isto terá alguma coisa a ver com magnetismo?
É curioso, os sinónimos que encontrei para magnetismo são atracção, encanto, sedução, fascínio, influência.
A capacidade de influenciar o outro talvez esteja relacionada, ao extremo, com a competência de activar uma série de mecanismos que levem a que a corrente eléctrica, a energia investida em determinada coisa, flua no mesmo sentido. Isto já aconteceu em inúmeras sociedades, com consequências positivas, mas também com outras terríveis, como, por exemplo, na Alemanha Nazi.
Relativamente à atracção, alguém me disse, e nas nossas vidas verificamos, que não são os opostos que se atraem. O semelhante é que gera atracção, proximidade. Os totalmente opostos, pelo menos no psiquismo, são, ainda que de forma absurda, tal como vimos que era a natureza, mais ou menos o mesmo. Quero dizer que a existência de “um ser idealizado, exclusivamente bom e fantástico” na mente, implica, inevitavelmente uma outra personagem interna “hedionda, abandonante, assustadora, homicida”. Ambas são esmagadoras e provocam curtos-circuitos - ou não há corrente eléctrica e se vive, paradoxalmente, morto, ou esta é de tal maneira forte (hipomania, mania) que desestabiliza todo o sistema, porventura, já instável. Ou seja, o circuito energético estabelecido é sempre curto e desprovido na maior parte das vezes de um objectivo, para além do prazer imediato, ou a auto-preservação (retirada para si mesmo), o que induz, no caso do ser humano, ao atrofio de si.
Ao atrofio de si, contrapomos o desejo de aprender e de desenvolver um sentimento de identidade (Quem sou eu? O faço aqui?), na vida e nos seus cenários. Mas, se as coisas com os nossos pais e outros cuidadores não correram suficientemente bem, e se as relações estabelecidas hoje se constituem ainda, no seu todo, como frustrantes ao invés de serem fontes de gratificação, assume-se como opção um trabalho emocional, e vital, através de uma relação de confiança estabelecida e de tipo terapêutico, onde existe e se ganha tempo para se ser, algo cada vez mais singelo na sociedade em que vivemos. Defende-se, assim, um ponto de vista relacional para a resolução de problemas e dificuldades, também elas relacionais, com raízes muitas vezes no passado, com reflexos no presente e que se constituem como forças anti-bloqueio de um futuro saudável.