sábado, fevereiro 17, 2007

Saber (a)mar

Na tua partida digo-te "adeus".
Que Ele cuide de ti na minha ausência.
Na tua chegada digo-te "amo-te".
Expresso o meu amor na primeira pessoa do verbo.
É contigo que partilho o olhar no horizonte, caminhando de mãos dadas.
E, é nesse olhar, a dois, que reencontro, vivo, um sentir oceânico, apaziguado, bom, que sabe (a)mar...

"Os grandes cretinos"

Uma vez a minha mãe disse-me que a areia é a rocha puída de amores. "Caraças", pensei, e fiz logo um castelo forradinho com as conchas mais bonitas que achei na praia.
Mas não quis acreditar quando, sem eu dar por isso, a maré subiu e as ondas derreteram, de um só rombo, todo o flanco da ala norte. Minutos depois, não sobrava uma ruína para contar a história da minha Pompeia.
Deus sabe que lutei com todas as minhas forças para evitar o inevitável (aliás, acho que Ele e o meu pai já sabiam que qualquer esforço humano seria inútil para recuperar aquele amor, mas não me disseram nada, os grandes cretinos...).
"O que é o mar?", perguntei então à minha mãe.
"É a vida", disse.
Paulo Campos dos Reis

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

(sóli) dão o que puderem dar

Recordo-me das tuas palavras meio soltas, por mim associadas, ontem, que me fizeram pensar no lugar da solidão. Tinha falado contigo, alguém que decidira habitar nesse lugar.
Argumentas que esse é o sítio do mundo onde podes ser. Talvez o único local possível. Por isso, talvez, também, tenhas essa necessidade de afastar todos aqueles que colocam em causa premissa tal, intelectualmente tão bem fundamentada. Eu fui mais um daqueles “uns” que às vezes se pensam mais que “uns” e que normalmente numa “manhã de puro inverno” se deixam, finalmente, cair. Tristes. E também sozinhos. Mas tu, não! Tu não dás a mão! Nem sequer o pé! Isso, apesar de dizeres que adoras pés! Ai sim? Mas tu gostas muito de alguma coisa??? Pensei que nada te chegasse!
Suspiraste quando te disse isso, referindo-me a outra mulher, também ela linda, sobre quem conversámos num dia de sol. Sim, porque tu admites que não estás habituada a partilhar. Sim, porque tu, do alto do teu charme de anos, me contas que passaram tantos anos e que eles e elas continuam a deixar-te sozinha. Ninguém pode contigo, ninguém aguenta, dizes tu. Ris quando te apetece chorar. Ris quando vês que todos partem quando tu chegas. Ficas atrapalhada quando as pessoas gostam de ti, assim, sem a partilha de um cabeção gigante de intelecto, só porque gostam. Confundida destróis vínculos, constróis instrumentos. A melhor defesa parece ser o ataque.
(Chove lá fora)
Poder-se-ia dizer, fantasiando, que seriam lágrimas. As tuas. As tuas. Aquelas que tu recusas chorar porque dizes que assim o escolheste. A solidão. O isolamento. Freud diz que esse é um caminho. Dizes que só a maternidade te fez sentir produtiva, construtiva. Até concebeste novamente quando te decidiste dedicar à pintura. Pintas a solidão a cores... mas cores sempre controladas por ti. Pareces, por um lado, querer tudo, absorver tudo, como se te vestisses sempre de preto. Por outro, é como se não quisesses nada e funcionasses como espelho reflector, sempre ornamentada de branco. Preto e branco, cores narcisicamente tingidas, uma paleta confusa e inconfundível.
Não sei, mas acho que prefiro viver mais tranquilamente.

domingo, fevereiro 11, 2007

Cama

Chegado da capital de automóvel. Não vim a conduzir. E ainda bem porque não me apetecia. No caminho algumas dezenas de conversas... Éramos cinco. Queria ser eu, só. Precisava de um momento. Adormeci. Tive direito ao que desejava. Viajei em sonhos meio acordado pela condução algo agressiva de quem nos guiava. Quando despertei estava mais calmo. O meu corpo, contudo, parecia querer deixar-se ficar numa cama qualquer, desde que fosse aconchegante.

O aconchego chegou com o teu olhar. Partimos para um lugar qualquer, algo anónimo. Não me recordava do seu nome. Fomos jantar. De bom grado partilhaste a tua elegância comigo. Sentia-me quente. Preocupado, no entanto, quando me falaste daquilo que te tem feito perder o sorriso... Conversámos um pouco, muito, o que foi preciso, enquanto comíamos um fondue da Mongólia na sala verde do restaurante. Pedimos vinho. Alentejano. Quase sempre. Aquecemos. Os sorrisos voltaram depois de falarmos dos espinhos. Pudemos trocar rosas. Com amor, saímos do restaurante, embalados ainda pelo óleo quente que tinha estado a borbulhar à nossa frente. Demo-nos à chuva e à cidade. A pé percorremos as ruas calcetadas em busca da rua do conhecimento. Chegados à mesma, entrámos nas ruelas estreitas. As casas, cujas janelas revelam estendais protegidos por plásticos, sempre de improviso, estavam indiferentes à nossa passagem. Há vidas paralelas na cidade. Entrámos num daqueles sítios onde melhor se pode respirar o amor e a amizade, apesar de não haver uma única janela para a rua. Sentámo-nos. Whisky e licor beirão. Mãos dadas, corações abertos. Sem impenetrabilidades. Só intimidades. Nem todas ali à mão, mas sempre contidas pelos nossos sorrisos. E afectos. Aqueles que trazem o silêncio quando se começa a dedilhar a guitarra. Procuro, sempre. Num dia sim, num dia não... Ainda se canta a ambivalência, mas com menos intensidade. Parece que a noite está mais clara. Parece que o embalo se revela de pés mais assentes na terra, mas sim, o sonho é permitido. Pedra Filosofal, à meia noite ao luar. Contentamento nostálgico. Não há copos de vinho a sorrir esta noite. Mas há gente a sorrir, há gaitas transmontanas e galegas, há espanhóis delirantes pelo calor português. Há estrangeiros que se sentem em casa: nós, um com o outro, “porque afinal o que importa não é o modo como se ama, mas conhecer restaurantes e ser muito bom na cama...” (Pedro Mexia).

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O retrato

"... No teu olhar sempre esteve qualquer coisa sem nome, uma ameaça submersa, um medo que ronda os sentidos.
Foi esse o teu fardo, todas as coisas que guardavas só para ti e que, aos poucos, te adoeceram a alma. Recordo-me que procuraste o deserto em todas as suas cores e cambiantes. Procuravas já uma cura para essa doença que te ruminava no ser, noite e dia, que te impedia o sono. Voltaste pior e não foste capaz de contar porquê. Eu vi. Fui eu quem te segurou a mão quando caíste, quem te limpou o suor da testa com panos molhados, quem te velou por muito tempo no silêncio e solidão do padecimento.
Aos poucos esse mar fez-se abismo, perdeu o fundo. Os olhos que tudo viam enclausuraram cada vez mais o mundo lá dentro, só para ti, com toda uma dor que não encontrava saída. Quando esbarraste no desespero não o soubeste dizer. Quando não encontraste opções não soubeste pedir ajuda. Regressaste ao deserto para nunca mais voltares. Quando todos os que te conheciam se admiraram, eu disse: mas sempre lá esteve, nunca o olharam nos olhos?"

Carlos Geadas, Os dias de um homem banal

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Quando...

Diz o Luís: "Quando é que o amor desapareceu?"
Responde a Ana: "Quando ficou frio o que era quente."

António Manuel Revez, O frio que faz na cama

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Onde está o Sul?

Chego a casa no final do dia. São 23h. Abro a caixa do correio. Vodafone. Mais uma conta para pagar. Tristezas não pagam dívidas. É pena. Assim talvez o saldo não ficasse negativo.
O carro está na oficina. A luz de avaria no sistema eléctrico acendeu e decidiu não se apagar. O carro não pegou, na cidade onde estudei. Parti de comboio para a cidade onde vivo, a 60km. Eram quase 21h. Decidi deixar para amanhã o que poderia ter feito naquele dia. No day after tomorrow levei o carro para os senhores que tratam de automóveis. Problema do carro após diagnóstico? Para já nenhum! (Onde é que eu já ouvi isto?) Aguardo nova análise à situação, e preparo-me para mais uma despesa. Enquanto isso não acontece, aproveito-me do seguro e de um carro alugado para andar de um lado para o outro. Parece que o facto da apólice estar registada com a morada da vila onde vivi, lá longe, à beira mar, me dá esse direito por 24h. Afinal sempre são cerca de 500km que o seguro cobre em caso de avaria. Durante 24h. São 23h. A meio caminho, longe, mas mais perto, mais ou menos a 250km, a capital, cidade onde nasci e que me acolheu for 12 years old. Como um belo whisky.
Passeio-me em frente ao ecrã do laptop. O Windows ainda é o XP. Não há Vista para ninguém. A esta hora já está escuro anyway. Divago, mas não navego. Nem sequer na internet.
Um In between dreams de Jack Johnson, melódico, embala. Quase vence a insónia. Afinal as 24h já chegaram. A televisão deixo-a apagada. Estou na sala, na casa apartamento que escolhi, na cidade onde vivo, praticamente à beira mar, mas a norte de quase tudo.