segunda-feira, dezembro 17, 2007

Aprendi...

Aprendi, há muito tempo, que as coisas não são como nós queremos. São, sim, como podem ser. Quando era pequeno, odiava que fosse assim. Hoje, adulto feito, continuo a não gostar. Agora, contudo, já não preciso de guardar o desespero para mim, nem, tão pouco, de fingir que está tudo bem. Neste momento, já posso dizer “não gostei”, “não gosto que seja assim”, “não quero que isto aconteça”, e, mediante as coisas que estiverem em causa, umas mutáveis, outras, nem por isso, sigo a minha vida, o meu caminho. Como nas partículas elementares, caminho imprevisível, mas o único que, feitas as contas, irei percorrer.
Disseram-me, no outro dia, alguém, citando o primeiro ser humano que se dedicou ao estudo da física quântica, que a natureza era absurda. Ora, consultando os sinónimos, bem pertinho, sem recorrer a qualquer dicionário em suporte de papel, absurdo pode ser sinónimo de ilógico, contraditório, paradoxal, inconsequente, incongruente, contraproducente, despropositado, disparatado. A natureza assim será, tal como a natureza humana, que, indubitavelmente, aí está integrada. Então, que caminho é que poderemos percorrer? O caminho da ignorância, com certeza. Quer dizer, o caminho do conhecimento. Mas, como fazê-lo? Se cada partícula tem um caminho idiossincrático, como traçar as rotas do ser humano, composto por uma imensidão de partículas, um infinito integrado de forças, que actuam muitas vezes em “direcções opostas”?
Explicaram-me que, na física, se colocarmos dois fios com corrente eléctrica em sentidos opostos, devido aos seus campos magnéticos, eles tendem a afastar-se. Pelo contrário, se os fios seguirem na mesma direcção, eles tendem a aproximar-se. Ora, pensei eu, é como nas pessoas. Nestas, todavia, a quantidade de “fios”, tendências, forças, desejos, serão, certamente, incontáveis. Mas, nas pessoas, isto terá alguma coisa a ver com magnetismo?
É curioso, os sinónimos que encontrei para magnetismo são atracção, encanto, sedução, fascínio, influência.
A capacidade de influenciar o outro talvez esteja relacionada, ao extremo, com a competência de activar uma série de mecanismos que levem a que a corrente eléctrica, a energia investida em determinada coisa, flua no mesmo sentido. Isto já aconteceu em inúmeras sociedades, com consequências positivas, mas também com outras terríveis, como, por exemplo, na Alemanha Nazi.
Relativamente à atracção, alguém me disse, e nas nossas vidas verificamos, que não são os opostos que se atraem. O semelhante é que gera atracção, proximidade. Os totalmente opostos, pelo menos no psiquismo, são, ainda que de forma absurda, tal como vimos que era a natureza, mais ou menos o mesmo. Quero dizer que a existência de “um ser idealizado, exclusivamente bom e fantástico” na mente, implica, inevitavelmente uma outra personagem interna “hedionda, abandonante, assustadora, homicida”. Ambas são esmagadoras e provocam curtos-circuitos - ou não há corrente eléctrica e se vive, paradoxalmente, morto, ou esta é de tal maneira forte (hipomania, mania) que desestabiliza todo o sistema, porventura, já instável. Ou seja, o circuito energético estabelecido é sempre curto e desprovido na maior parte das vezes de um objectivo, para além do prazer imediato, ou a auto-preservação (retirada para si mesmo), o que induz, no caso do ser humano, ao atrofio de si.
Ao atrofio de si, contrapomos o desejo de aprender e de desenvolver um sentimento de identidade (Quem sou eu? O faço aqui?), na vida e nos seus cenários. Mas, se as coisas com os nossos pais e outros cuidadores não correram suficientemente bem, e se as relações estabelecidas hoje se constituem ainda, no seu todo, como frustrantes ao invés de serem fontes de gratificação, assume-se como opção um trabalho emocional, e vital, através de uma relação de confiança estabelecida e de tipo terapêutico, onde existe e se ganha tempo para se ser, algo cada vez mais singelo na sociedade em que vivemos. Defende-se, assim, um ponto de vista relacional para a resolução de problemas e dificuldades, também elas relacionais, com raízes muitas vezes no passado, com reflexos no presente e que se constituem como forças anti-bloqueio de um futuro saudável.

quinta-feira, novembro 22, 2007

1973

JAMES BLUNT

"1973"

Simona
You're getting older
Your journey's been
Etched on your skin

Simona
Wish I had known that
What seemed so strong
Has been and gone

I would call you up every Saturday night
And we'd both stay out till the morning light
And we sang, "Here we go again"
And though time goes by
I will always be
In a club with you
In 1973
Singing "Here we go again"

Simona
Wish I was sober
So I could see clearly now
The rain has gone

Simona
I guess it's over
My memory plays our tune
The same old song

[1973 lyrics on http://www.metrolyrics.com]

I would call you up every Saturday night

And we`d both stay out till the morning light
And we sang, "Here we go again"
And though time goes by
I will always be
In a club with you
In 1973
Singing "Here we go again"

I would call you up every Saturday night
And we'd both stay out till the morning light
And we sang, "Here we go again"
And though time goes by
I will always be
In a club with you
In 1973
Singing "Here we go again"

I would call you up every Saturday night
And we'd both stay out 'til the morning light
And we sang, "Here we go again"
And though time goes by
I will always be
In a club with you
In 1973
Singing "Here we go again"

And though time goes by
I will always be
In a club with you
In 1973

domingo, novembro 04, 2007

Sem grande inspiração

Sem grande inspiração. Sozinho no quarto. Não estás. Saíste com uns tipos quaisquer para te arranjarem uns colares novos, ou talvez uns perfumes. O telefone toca, interrompendo, por momentos, o som monótono e de embalo do termo-ventilador. Desligaram. Era um toque. Dois toques. Três toques.
Há imenso tempo que não jogo futebol. Marcar golos só simbolicamente ou, então, na horizontal. Aí, o que acontece é que não costumamos comemorar com um grito alto tipo “Golo!!”, nem tão pouco fechar e erguer os punhos. Talvez seja outro tipo de expressões que surjam, o rosto contraído de prazer e a voz, abdominal, a erguer-se de um fundo de uma cama a ranger. O som global vai ainda, contudo, depender da parceira.
Parceira de jornada. Não está aqui. Saíste com uns tipos quaisquer para te arranjarem uns colares novos, ou talvez uns perfumes.
Dou por mim a divagar, devagar, ou aceleradamente, sobre o desenvolvimento da inteligência emocional nos cães. Terá sido, para além dos infinitos cruzamentos de raças que para isso contribuíram, por identificação projectiva, na relação com os humanos, advogo eu, talvez em jeito de delírio, permitindo o desenvolvimento de novas vias de comunicação e uma propensão especial para a dependência dos afectos. Curiosamente, um cão não reconhece a mãe, tal como o ser humano o faz, mas reconhece e vincula-se ao dono e a outros seres humanos significativos.

A verdade é que são poucas as vezes que dou por mim com aquela curiosidade, que reconheço infantil, e que me fazia sonhar que um dia seria um cientista, daqueles que pudesse acrescentar um qualquer sentido para a humanidade. Fazendo inevitavelmente parte dessa humanidade, embora esquecendo, por vezes, perdão, omitindo, essa consciência de pertença e anestesiando-me entre os afazeres, preocupações e novelas quotidianas, já homem adulto, acho a curiosidade um bicho de difícil alimentação. Porque, à medida que crescemos, tomamos consciência de que, à escala global, somos infinitamente pequenos. Eis a benesse por sermos curiosos...

quarta-feira, outubro 24, 2007

Morre Lentamente...

Morre lentamente...
quem não lê
quem não viaja,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente...
quem destrói seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente...
quem se transforma em escravo do hábito
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente...
quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos
e os corações aos tropeços.
Morre lentamente...
quem não vira a mesa quando
está infeliz com o seu trabalho, ou amor,
quem não arrisca o certo pelo incerto
para ir atrás de um sonho,
quem não se permite, pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos...
Viva hoje !
Arrisque hoje !
Faça hoje !
Não se deixe morrer lentamente !

NÃO SE ESQUEÇA DE SER FELIZ !

Pablo Neruda

sexta-feira, outubro 05, 2007

Perdidos e achados

Há pessoas, quase humanas, que vivem, inconstantemente, na secção de perdidos e achados de um lugar qualquer.

sexta-feira, setembro 21, 2007

segunda-feira, setembro 03, 2007

majorette

Quando era pequeno, tinha muitos sonhos. Ficava a imaginar como seria tranquilo o mundo dos crescidos. Pensava que ser grande era assim uma espécie de defesa contra o sentirmo-nos pequenos. Agora, cresci. Estava redondamente enganado.
Quando era pequeno, recordo-me de brincar com os meus playmobil e também com alguns dos bonecos das tartarugas ninja. Eram muitos, e sonoros, os combates naquele tempo. Não havia feridos, nem consequências de maior. O dia seguinte iria amanhecer, inevitavelmente, pensava eu.
Mais tarde, soube eu, afinal, as guerras eram outras. De maior dimensão, talvez, com mais baixas e maiores danos colaterais interiores... maiores do que aquilo que eu poderia imaginar entre os combates do destruidor com o mestre splinter, ou entre as corridas entre carrinhos dos 150 ou, eventualmente, se fossem as corridas de elite lá da rua, com um da majorette. O meu preferido era um jaguar côr de vinho. Mais tarde, tive uma limousine prateada da Mercedes.
Andava com a minha limousine para todo o lado. Aquilo fazia parte do meu imaginário. Via aqueles carros na televisão e nos filmes. Talvez me imaginasse lá dentro, simultaneamente na ribalta, e protegido por todo o seu conforto e robustez. It never happen.
Quando era pequeno, tinha muitos sonhos. A minha canção preferida era uma da Miluvit que dizia que iríamos crescer. Lembro-me de andar com a minha limousine e a cassete do vitinho para todo o lado. A almofada do vitinho também me acompanhava. Acho que era ela que me abria a porta para o mundo dos sonhos. Curiosamente, desses sonhos de dormir, lembro-me de poucos. Acho que esperava pelo dia seguinte. Às vezes revia o dia que tinha passado, lembrava-me do que de bom ou de mau tinha acontecido. Ria. Calava o descontentamento. No dia seguinte estaria, certamente, tudo bem.
Quando era pequeno, tinha muitos sonhos. Escutava a cassete do vitinho, xutos e pontapés, e, mais tarde, resistência. You have got to fight for your rights.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Family weekend

Yep. Este fim de semana será familiar ;)

quarta-feira, agosto 29, 2007

Bilhetes e passagens

Comprou uma passagem de avião
O destino era a paixão
Andava a aprender a amar
O receio era o de se entregar

Comprou uma passagem de avião
O destino era a multidão
Andava a aprender a sorrir
O receio era o de cair

Comprou um bilhete para o metro
O seu destino era agora incerto
Andava numa de abraçar a escuridão
Alternava com dias de mortificação

Comprou um bilhete para o metro
O seu destino estava perto
Andava em busca da sua rota
O receio era o da bancarrota

Nunca parou de viajar.

sexta-feira, agosto 24, 2007

manhã

Telemóvel despertador. Triiimm! 08h15 da manhã. Preguiça. Muita preguiça! Levantar. Está calor, a diferença de temperatura in bed e out of the bed não é muito grande. Casa de banho. Primeiro olhar. Um bom dia interno, seguido de um, também interno, "Ai jesus, que à sexta-feira custa mais acordar cedo!". Em vez do duche matinal, seguido daqueles rituais mais ou menos idênticos ao longo de muitos dias, prefiro o computador. Ligo-o. Organizo algumas coisas em bases de dados do Excel. Sou chamado para o pequeno-almoço. Lá vou eu para os cereais de chocolate negro, comidos em boa companhia :).

A seguir, combinado que estava irmos ao café, arranjámo-nos temporariamente, ou seja, com roupas mais ou menos desportivas de ir ao café da esquina. Antes de sair de casa, dou por mim com um cabelo tipo "sempre em pé". Vai à água, a esta hora, só o cabelo. Serenou. Fizemo-nos à estrada. Começámos a jogar às escondidas... Seguimos depois...

Chegados ao café. Alguma troca de palavras: "dois cafés!". Jornal de Notícias, Record, revista Viva, o Diário não estava disponível. Comentam-se alguns artigos mais interessantes, algumas vidas atribuladas, algumas más notícias, principalmente envolvendo acidentes e crimes... Respiramos fundo, de alívio. Não éramos nós que estávamos nas páginas tristes do jornal.

Até logo, café dos habituais "dois cafés!".

Chegados a casa.

Pego na bicicleta, na mochila. Faço-me novamente à estrada. Viagem ao leite, ao pão, ao tomate e ao arroz... No final, também trago cereais e cogumelos... Viagem "exercitante" do corpo, companheira do pensamento...

Afinal, tudo isto é alimento.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Bom dia!

O dia amanhece com Sol. A tranquilidade ainda impera. Banho tomado, pequeno-almoço tomado, suplemento energético musical tomado. Começa o trabalho. As férias já acabaram...

quarta-feira, julho 11, 2007

C.: Encosta-te a mim

Encosta-te a mim
Nós já vivemos cem mil anos
Encosta-te a mim
Talvez eu esteja a exagerar

Encosta-te a mim
Dá cabo dos teus desenganos
Não queiras ver quem eu não sou
Deixa-me chegar

Chegado da guerra
Fiz tudo para sobreviver
Em nome da Terra
No fundo, para te merecer

Recebe-me bem
Não desencantes os meus passos
Faz de mim o teu herói
Não quero adormecer

Tudo o que eu vi
Estou a partilhar contigo
O que não vivi
Hei-de inventar contigo

Sei que não sei
Às vezes entender o teu olhar
Mas, quero-te bem
Encosta-te a mim

Encosta-te a mim
Desatinamos tantas vezes
Vizinha de mim
Deixa ser meu o teu quintal

Recebe esta pomba
Que não está armadilhada
Foi comprada
Foi roubada
Seja como for
Eu venho do nada

Porque arrasei o que não quis
Em nome da estrada
Onde só quero ser feliz
Enrosca-te a mim
Vai desarmar a flor queimada
Vai beijar o homem bomba
Quero adormecer

Tudo o que eu vi
Estou a partilhar contigo
O que não vivi
Hei-de inventar contigo

Sei que não sei
Às vezes entender o teu olhar
Mas, quero-te bem
Encosta-te a mim

Quero-te bem
Encosta-te a mim


(Jorge Palma)

quinta-feira, maio 24, 2007

Biblioteca

Interactive Pictures
O Primeiro Éden
Livro do Espectáculo do CATS
Novas Perspectivas das Ciências do Homem
O Homem
Veronika Decide Morrer
Olhares do Mundo
A Origem da Família da Propriedade e do Estado
O Paradigma Perdido
Noites Brancas
A Náusea
O Altruismo e a Moral
Being Dead
Genoma
Apanhados do Clima
As minas de Salomão
O Erotismo
Cala a minha boca com a tua
Os Versículos Satânicos
A Materna Doçura
A Lei do Amor
O Anti-Cristo
Assim Falava Zaratrustra
Tieta do Agreste
Amor, curiosidade, prozac e dúvidas
Mitologias
A procura da verdade oculta
Sete cartas a um jovem filósofo
Metamorfose
O menino que não gostava de ler
O conhecimento da flor
O Cão Amarelo
In and Out
O homem que mordeu o cão
Van Gogh
Sul
O Evangelho segundo Jesus Cristo
Azul
Lovecraft
Não há longe nem distância
Vinte Poemas de Amor
A Arte
A ideia de Europa
Os dias de um homem banal
Adopta-me
Deixa-me que te conte
O Códido Da Vinci
As Horas
Não entres tão depressa nessa noite escura
A substância do amor
Os primeiros anos
Uma casa na escuridão
A insustentável leveza do ser
...

quinta-feira, maio 17, 2007

Sem som

A televisão não tem som. À minha volta, na sala, só está a imobilidade do tempo a passar. Há algum ruído de fundo: uma crianças, uns pais, uns passos...
Os meus olhos, pesados, centram-se nos pontinhos que formam a imagem do ecrã do portátil. Opções: ir para o café beber mais um café; ir para a cozinha lavar uma pilha de loiça; tomar um banho para refrescar as ideias; deixar-me estar, estendido no sofá, à espera da hora de ir para Coimbra...
Auto-conhecimento é o conceito chave da minha tarde de hoje. Pensar, pensar, pensar, sentir, sentir, sentir... Respiro fundo. Olho novamente à volta... continua a estar só a imobilidade do tempo a passar... É angustiante... Os ruídos de fundo continuam.
Procuro acertar o passo entre os mundos que habito e que me habitam... Tenho dúvidas, tenho tantas dúvidas. Tenho também saudades de pessoas, daquelas, muito especiais... que fazem companhia e que dão alegria. É bom dar e receber contentamento...
"O que faz falta é animar a malta!"

Não sei se tenho os pés inchados. Acho que não. Por dentro, sim, talvez esteja inchado. É que isto de estar sem cigarros e quase de dieta tem muito que se lhe diga... Enfim, ora são dores de cabeça, ora dores de barriga... mas tudo isso é resolúvel... penso que o apaziguamento virá com o tempo... aquele que continua imóvel a passar...

Estou, eu próprio, com mil e uma tarefas a meio... Está tudo a meio... a meio do fim... mas que fim? Mas que raio, estou farto de coisas atravessadas! Mas não consigo atravessar a fronteira, o limite... Há tanta coisa que ainda não sei...

segunda-feira, maio 07, 2007

Escrevo, logo desincho

Sinto que escrever é um bom remédio. Para o tempo que ora passa depressa de mais. Para o tempo que se quita quase imóvel nos corações. Para a sede de viver. Para a fome interna. Para os senhores e senhoras que me têm acompanhado nos palcos trágico-cómicos do quotidiano e que me fazem sentir e sentir novamente. Proficuamente escrevo.
Escrever é um bom xarope. Para a tosse de cão, quando cobiçamos o osso alheio. Para a urticária, quando o problema são as comichões. Para a febre, quando os calores são irresolúveis sem concretizações adequadas. Pois é, o desejo insiste e persiste. Para a voz, quando urge a necessidade de cantar. Há quem diga que sou um cantador, ou seja, que canto a dor. Não sei. Mas, escrever é um bom analgésico para as dores. Para as dores de barriga, se estivermos com dificuldades em digerir o que foi para dentro. Para as dores de cabeça, quando a tensão devida ao aparelho de pensar termina e os vasos sanguíneos deixando de ficar energizados, decidem expandir e, no seu relaxamento, fazem doer. Para as dores dos ossos, estruturais por natureza. Para as dores nas articulações, quando o mais difícil são as ligações entre contextos, entre tempos - passado, presente e futuro. Para as dores nos pés - Édipo, e todos os homens de pés inchados, que caminham muito, ou mal, ou em condições talvez pouco recomendáveis – que aparecem de tempos a tempos.
Eu?
Escrevo para desinchar os pés.
E vocês?

segunda-feira, abril 23, 2007

para cima e para baixo

Mais uma viagem. Para cima, para baixo, para os lados. A geografia, de resto, até nem me importa muito. De um lado para o outro. Sempre.
Conhecem-se pessoas, cores, sabores, repetem-se sensações, redescobrem-se outras. Ouvem-se sons de um passado recente, com sotaque, num jardim percorrido, a brincar, na infância. Falo de uma Tuna mista chamada "TUCA" dos Açores a tocar e a cantar no jardim de Belém, em frente ao Mosteiro dos Jerónimos. Saudade do traje, da não responsabilidade de adulto, mas tudo isso sentido com um sorriso, comovido, de quem come, digere, e guarda a vida. Acho eu.

quarta-feira, abril 11, 2007

de regresso...

www.apsicologiaeoutrossaberes.blogspot.com

quarta-feira, abril 04, 2007

A Páscoa


















FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS no AL-GHARB.

Votos de uma Páscoa Feliz!

terça-feira, março 13, 2007

Um bom dia

O dia principia. Os raios de sol circulam através do que resta da neblina matinal.
Dou por mim sentado no café, à procura dos primeiros pensamentos do dia. À espera do primeiro alimento diurno. Aguardo.
Tal como numa rede de transportes de uma cidade, os meus pensamentos fluem e circulam. Uns autocarros andam cheios, outros não. Os metros e os comboios vão "maneirinhos", pegando e largando pessoas em cada estação.
Os bilhetes, da vida, são somente de ida. Não há retorno. É um caminho diverso, múltiplo, mas sem podermos voltar atrás. Só e apenas, olhar para trás, procurando, numa espécie de balancete afectivo, ter o sentimento de que esta ou aquela música, ou este ou aquele ruído, valeram a pena, ou se, pelo menos, eles puderam ganhar um sentido, daqueles que nos fazem comover, ou que nos permitem continuar a emocionarmo-nos, com a alegria do que é bom e faz crescer.
Um danoninho poderia resolver tudo. Crescer, crescer, crescer. Mas não, já não dá. O Vitinho também já era... E pronto, está na hora de deixar a caminha...

... e desejar um bom dia àqueles em que, por momentos, nos podemos reconhecer...

domingo, março 11, 2007

tic tac

Os minutos passam impiedosamente.
Parte da sua passagem é desejada. Outra parte não.
Tic tac, Tic tac.
Respira-se fundo. Pensa-se profundo.
O tempo condensa-se, dentro de nós, e agita-se. A tua ausência inscreve-se nesse tempo.
Amanhã, o regresso ao caminho da aprendizagem da "desinscrição".
Do estar e ser, sem estar e ser, like common sense perspective.
O retorno à estrada sinuosa, e sem turning back point, de olhar para além do visível, de escutar para lá do audível.
Tic tac, Tic tac.
O conhecimento transformar-se-á um dia em intuição.
Tic tac.
A emoção em pensamento. No more rolling stones inside your head.
Será?
Os minutos passam impiedosamente.
Não me sinto velho, ainda que já me chamem, ocasionalmente, "velhadas" e cota. Contudo, e felizmente (?), de vez em quando, também vá ouvindo exclamações do tipo "jovem!", no café ou no restaurante, quando a mim se dirigem...
Às vezes é difícil saber onde estamos e que calçado surge como o apropriado.
Os minutos passam impiedosamente, e nós...
...Continuamos na mesma.
Tic tac,
Tic tac,
Tic tac,
Tic tac...

quinta-feira, março 08, 2007

Sim, é inspirador.

daqui em diante...

... a dança sincrónica da rotina dos livros, do conhecimento, do vivere quotidiano e laboral, andará a par e passo com a dança quente, dos corpos íntimos, e dos olhares, seus velhos conhecidos.
Conheço o frio, mas prefiro o quente.

... seguirei descalço, porque dessa natura sou feito, de braços abertos ao teu encontro.
Estou farto de sapatos chiques. Gosto de chapéus.

... conhecerei restaurantes, partilharei pratos exóticos, ou simples cafés, a par com as mais nobres danças de amizade, de gestos ternos, de erotismo, mais ou menos clandestino.
Conheço o frio, mas prefiro o quente.

... amarei, sempre que puder. Amarei mais.
Estou farto de sapatos chiques. Gosto de chapéus.

domingo, março 04, 2007

noções básicas de vida

"A vida é sempre mais urgente que o trabalho". :)

sábado, fevereiro 17, 2007

Saber (a)mar

Na tua partida digo-te "adeus".
Que Ele cuide de ti na minha ausência.
Na tua chegada digo-te "amo-te".
Expresso o meu amor na primeira pessoa do verbo.
É contigo que partilho o olhar no horizonte, caminhando de mãos dadas.
E, é nesse olhar, a dois, que reencontro, vivo, um sentir oceânico, apaziguado, bom, que sabe (a)mar...

"Os grandes cretinos"

Uma vez a minha mãe disse-me que a areia é a rocha puída de amores. "Caraças", pensei, e fiz logo um castelo forradinho com as conchas mais bonitas que achei na praia.
Mas não quis acreditar quando, sem eu dar por isso, a maré subiu e as ondas derreteram, de um só rombo, todo o flanco da ala norte. Minutos depois, não sobrava uma ruína para contar a história da minha Pompeia.
Deus sabe que lutei com todas as minhas forças para evitar o inevitável (aliás, acho que Ele e o meu pai já sabiam que qualquer esforço humano seria inútil para recuperar aquele amor, mas não me disseram nada, os grandes cretinos...).
"O que é o mar?", perguntei então à minha mãe.
"É a vida", disse.
Paulo Campos dos Reis

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

(sóli) dão o que puderem dar

Recordo-me das tuas palavras meio soltas, por mim associadas, ontem, que me fizeram pensar no lugar da solidão. Tinha falado contigo, alguém que decidira habitar nesse lugar.
Argumentas que esse é o sítio do mundo onde podes ser. Talvez o único local possível. Por isso, talvez, também, tenhas essa necessidade de afastar todos aqueles que colocam em causa premissa tal, intelectualmente tão bem fundamentada. Eu fui mais um daqueles “uns” que às vezes se pensam mais que “uns” e que normalmente numa “manhã de puro inverno” se deixam, finalmente, cair. Tristes. E também sozinhos. Mas tu, não! Tu não dás a mão! Nem sequer o pé! Isso, apesar de dizeres que adoras pés! Ai sim? Mas tu gostas muito de alguma coisa??? Pensei que nada te chegasse!
Suspiraste quando te disse isso, referindo-me a outra mulher, também ela linda, sobre quem conversámos num dia de sol. Sim, porque tu admites que não estás habituada a partilhar. Sim, porque tu, do alto do teu charme de anos, me contas que passaram tantos anos e que eles e elas continuam a deixar-te sozinha. Ninguém pode contigo, ninguém aguenta, dizes tu. Ris quando te apetece chorar. Ris quando vês que todos partem quando tu chegas. Ficas atrapalhada quando as pessoas gostam de ti, assim, sem a partilha de um cabeção gigante de intelecto, só porque gostam. Confundida destróis vínculos, constróis instrumentos. A melhor defesa parece ser o ataque.
(Chove lá fora)
Poder-se-ia dizer, fantasiando, que seriam lágrimas. As tuas. As tuas. Aquelas que tu recusas chorar porque dizes que assim o escolheste. A solidão. O isolamento. Freud diz que esse é um caminho. Dizes que só a maternidade te fez sentir produtiva, construtiva. Até concebeste novamente quando te decidiste dedicar à pintura. Pintas a solidão a cores... mas cores sempre controladas por ti. Pareces, por um lado, querer tudo, absorver tudo, como se te vestisses sempre de preto. Por outro, é como se não quisesses nada e funcionasses como espelho reflector, sempre ornamentada de branco. Preto e branco, cores narcisicamente tingidas, uma paleta confusa e inconfundível.
Não sei, mas acho que prefiro viver mais tranquilamente.

domingo, fevereiro 11, 2007

Cama

Chegado da capital de automóvel. Não vim a conduzir. E ainda bem porque não me apetecia. No caminho algumas dezenas de conversas... Éramos cinco. Queria ser eu, só. Precisava de um momento. Adormeci. Tive direito ao que desejava. Viajei em sonhos meio acordado pela condução algo agressiva de quem nos guiava. Quando despertei estava mais calmo. O meu corpo, contudo, parecia querer deixar-se ficar numa cama qualquer, desde que fosse aconchegante.

O aconchego chegou com o teu olhar. Partimos para um lugar qualquer, algo anónimo. Não me recordava do seu nome. Fomos jantar. De bom grado partilhaste a tua elegância comigo. Sentia-me quente. Preocupado, no entanto, quando me falaste daquilo que te tem feito perder o sorriso... Conversámos um pouco, muito, o que foi preciso, enquanto comíamos um fondue da Mongólia na sala verde do restaurante. Pedimos vinho. Alentejano. Quase sempre. Aquecemos. Os sorrisos voltaram depois de falarmos dos espinhos. Pudemos trocar rosas. Com amor, saímos do restaurante, embalados ainda pelo óleo quente que tinha estado a borbulhar à nossa frente. Demo-nos à chuva e à cidade. A pé percorremos as ruas calcetadas em busca da rua do conhecimento. Chegados à mesma, entrámos nas ruelas estreitas. As casas, cujas janelas revelam estendais protegidos por plásticos, sempre de improviso, estavam indiferentes à nossa passagem. Há vidas paralelas na cidade. Entrámos num daqueles sítios onde melhor se pode respirar o amor e a amizade, apesar de não haver uma única janela para a rua. Sentámo-nos. Whisky e licor beirão. Mãos dadas, corações abertos. Sem impenetrabilidades. Só intimidades. Nem todas ali à mão, mas sempre contidas pelos nossos sorrisos. E afectos. Aqueles que trazem o silêncio quando se começa a dedilhar a guitarra. Procuro, sempre. Num dia sim, num dia não... Ainda se canta a ambivalência, mas com menos intensidade. Parece que a noite está mais clara. Parece que o embalo se revela de pés mais assentes na terra, mas sim, o sonho é permitido. Pedra Filosofal, à meia noite ao luar. Contentamento nostálgico. Não há copos de vinho a sorrir esta noite. Mas há gente a sorrir, há gaitas transmontanas e galegas, há espanhóis delirantes pelo calor português. Há estrangeiros que se sentem em casa: nós, um com o outro, “porque afinal o que importa não é o modo como se ama, mas conhecer restaurantes e ser muito bom na cama...” (Pedro Mexia).

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O retrato

"... No teu olhar sempre esteve qualquer coisa sem nome, uma ameaça submersa, um medo que ronda os sentidos.
Foi esse o teu fardo, todas as coisas que guardavas só para ti e que, aos poucos, te adoeceram a alma. Recordo-me que procuraste o deserto em todas as suas cores e cambiantes. Procuravas já uma cura para essa doença que te ruminava no ser, noite e dia, que te impedia o sono. Voltaste pior e não foste capaz de contar porquê. Eu vi. Fui eu quem te segurou a mão quando caíste, quem te limpou o suor da testa com panos molhados, quem te velou por muito tempo no silêncio e solidão do padecimento.
Aos poucos esse mar fez-se abismo, perdeu o fundo. Os olhos que tudo viam enclausuraram cada vez mais o mundo lá dentro, só para ti, com toda uma dor que não encontrava saída. Quando esbarraste no desespero não o soubeste dizer. Quando não encontraste opções não soubeste pedir ajuda. Regressaste ao deserto para nunca mais voltares. Quando todos os que te conheciam se admiraram, eu disse: mas sempre lá esteve, nunca o olharam nos olhos?"

Carlos Geadas, Os dias de um homem banal

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Quando...

Diz o Luís: "Quando é que o amor desapareceu?"
Responde a Ana: "Quando ficou frio o que era quente."

António Manuel Revez, O frio que faz na cama

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Onde está o Sul?

Chego a casa no final do dia. São 23h. Abro a caixa do correio. Vodafone. Mais uma conta para pagar. Tristezas não pagam dívidas. É pena. Assim talvez o saldo não ficasse negativo.
O carro está na oficina. A luz de avaria no sistema eléctrico acendeu e decidiu não se apagar. O carro não pegou, na cidade onde estudei. Parti de comboio para a cidade onde vivo, a 60km. Eram quase 21h. Decidi deixar para amanhã o que poderia ter feito naquele dia. No day after tomorrow levei o carro para os senhores que tratam de automóveis. Problema do carro após diagnóstico? Para já nenhum! (Onde é que eu já ouvi isto?) Aguardo nova análise à situação, e preparo-me para mais uma despesa. Enquanto isso não acontece, aproveito-me do seguro e de um carro alugado para andar de um lado para o outro. Parece que o facto da apólice estar registada com a morada da vila onde vivi, lá longe, à beira mar, me dá esse direito por 24h. Afinal sempre são cerca de 500km que o seguro cobre em caso de avaria. Durante 24h. São 23h. A meio caminho, longe, mas mais perto, mais ou menos a 250km, a capital, cidade onde nasci e que me acolheu for 12 years old. Como um belo whisky.
Passeio-me em frente ao ecrã do laptop. O Windows ainda é o XP. Não há Vista para ninguém. A esta hora já está escuro anyway. Divago, mas não navego. Nem sequer na internet.
Um In between dreams de Jack Johnson, melódico, embala. Quase vence a insónia. Afinal as 24h já chegaram. A televisão deixo-a apagada. Estou na sala, na casa apartamento que escolhi, na cidade onde vivo, praticamente à beira mar, mas a norte de quase tudo.

sábado, janeiro 27, 2007

África tua...

“...revisitar o passado foi muito importante, muito forte, muitas emoções, indescritível. O nosso "sentir" normalmente nada diz à maioria dos "outros". São poucos a quem conseguimos transmitir o sentir.
Regressar ao "presente", e encontrar um presente diferente não é fácil. Ficamos com dúvidas, se somos nós que estamos diferentes, ou se a diferença está nos outros!
Encontrei diferença, dizem que sou eu. Quem será?”

Naná, 2006 (depois da visita à sua casa de infância em Moçambique).

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Em jeito de Bossa Nova

Papo de psicólogo

Não é papo de psicólogo
Eu só quero entender, é
Se um grande amor termina
A gente se preocupa em saber porquê
O que é que deu errado?
Onde é que desandou?
Para onde foi a alma e a alegria de nosso amor?

Não é nenhuma análise
É só um apelo de quem viveu de perto a dor
A gente sofre
A gente explica
Mas não resolve
Só complica

Amei-te, desespera, e o coração não espera
Se a gente vai ficar maluco por amor
É bem melhor que seja dois, pois sendo um só é bem pior

Deita, pensando no amanhã
Pensa se deita em meu divã

Deita, pensando no amanhã
Pensa se deita em meu divã

Mas não é papo de psicólogo não
Eu só quero entender, é
Se um grande amor termina
A gente se preocupa em saber porquê
O que é que deu errado?
Onde é que desandou?
Para onde foi a alma e a alegria do nosso amor?

Não é nenhuma análise
É só um apelo de quem viveu de perto a dor
A gente sofre
A gente explica
Mas não resolve
Só complica

Amei-te, desespera, e o coração não espera
Se a gente vai ficar maluco por amor
É bem melhor que seja dois, pois sendo adeus é bem pior

Deita, pensando no amanhã
Pensa se deita em meu divã

Deita, pensando no amanhã
Pensa se deita em meu divã


Jairzinho Oliveira,
in Samba Bossa Nova - Putumayo World Music

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Leituras

Recomendo vivamente (!) José Luís Peixoto.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Era uma vez...


Era uma vez uma menina que vivia num castelo encantado (?). Vivia numa redoma qualquer, feita de um vidro qualquer, de grãos de areia fundido. A menina, com o passar dos anos, tinha-se tornado mulher. Cresceu, cresceu, até que parou de crescer. Tinha encontrado um daqueles bichos papões assustadores que, quando crescemos, só habitam por dentro. Era um bicho que metia muito muito medo. Tinha boca de sapo, olhos de albino e orelhas de burro. O seu corpo era de cabra. Ah! Tinha um longo pescoço de girafa e dedos de humano obeso. Deslocava-se à velocidade da luz, quer dizer, do pensamento. A menina, digo, a mulher, já estava habituada à sua omnipresença. Nunca se esquecia dele. Vivia atormentada por este monstro de orelhas de burro. Não era um monstro bom, como aqueles que os meninos e meninas conhecem, quando se vêem num mundo monstruosamente construído(?). Para todos os lugares a que ela ia, o monstro corria atrás. Pudera! Era um monstro que, por ser tão feio, e de lugar nenhum, não tinha amigos. O único consolo eram os “assustanços” e o acto de fazer a mulher sentir-se como uma menina monstro orelhas de burro de quem ninguém poderia gostar. Era um triste consolo. Mas era um consolo. A mulher já não sabia o que fazer, porque, apesar do pescoço de girafa do monstro ser engraçado, ela não conseguia rir dele. Chorava muito muito muito, sempre que tinha oportunidade. Havia até um pirilampo, seu companheiro de noites escuras, que lhe dizia que era graças a ela que o lago da ilha em que viviam estava sempre cheio, pois já não chovia há muitos anos. O monstro coitado, também não sabia o que fazer, pois cada vez estava mais farto daquela vida. Estavam os dois cansados, o monstro e a mulher, mas não se conseguiam libertar um do outro. Então, como um prisioneiro e a respectiva bola de ferro e sua corrente, arrastavam-se um ao outro. Já não se sabia era quem arrastava quem. A mulher desculpava-se com o monstro de sempre, e ele com a menina mulher orelhas de burro. Eram os dois meninos assustados. O pirilampo sabia disso e, até ele, já estava cansado de tentar iluminar, ora um ora outro, com as suas facetas alternantes. No fundo, eram os dois de lugar nenhum, e em lugar nenhum se encontravam, até hoje. Era esse o seu pacto estupidamente mórbido. O pirilampo decidiu então abandonar a ilha.
A mulher viu-se sozinha na ilha. Durante o dia procurava alimento para subsistir. À noite tremia de medo, porque, pensava ela, o monstro iria infernizá-la para sempre, isto é, até ao dia nascer. Eram noites que pareciam intermináveis, escuras, escuras, muito escuras, tão escuras que, com a inquietação, a mulher começou a andar, sem parar, e perdeu-se no meio da escuridão. Curiosamente, o monstro ficou, ele que tanto metia medo, assustado, pois não sabia onde estava e decidiu ficar calado. Nem afundava os seus pesados pés, nem esticava o seu longo pescoço, nem movimentava as suas orelhas de burro. Da sua grande boca de sapo nem um ruído. A mulher descobriu que ao caminhar poderia libertar-se do monstro, em vez de o arrastar sempre pelos mesmos lugares. Percebeu então que tinha uma luzinha dentro dela, uma espécie de pirilampo agora tornado farol, porque ela já o encontrava em si, que a poderia fazer continuar a crescer. Assim, já poderia descobrir o resto da ilha, em vez de se contemplar, durante dias e noites, ao espelho do lago, vendo-se, sempre, como a menina mulher com orelhas de burro. Afinal ela agora via melhor e decidiu usar todos os seus sentidos, para além da visão. Decidiu, finalmente, sair do seu castelo, descobrir a sua ilha e viver. Descobriu que perto do seu castelo havia uma vila cheia de gente. Umas pessoas eram bonitas, outras eram muito feias. Viu coisas fantásticas e coisas hediondas. Mas ela já tinha aprendido que o “inferno somos nós”. E recomeçou a crescer.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

"Simplex"

É curiosa a forma como, quotidianamente, se sente o desespero do outro. Rien du rien, esse sentimento (?), complementando proactivamente a anestesia dos “simplexes” tecnológicos que se aventuram solitariamente nas casinhas e casarões de cada família, junto aos miúdos e miúdas, homens e (algumas) mulheres. Mascarados sob vários nomes, lembrando ângulos que não levam a lado nenhum, ou a PSP, a Polícia de Segurança Pública, mas sem a presença dos “cabeças de giz”, polícias sinaleiros, para orientarem o trânsito interno.
Não penso, contudo, que o papel demoníaco para um certo estado de vazio interior, muitas vezes disfarçado por ingestões compulsivas de BIG’s de qualquer género, comidas, carros luxuosos, telemóveis pink, pack, ou Dolce Gabbana, possa ser entregue aos videojogos. Do mesmo modo, acrescento que algumas novas tecnologias, paradoxalmente, dado que muitas são desenvolvidas com o intuito de "connecting people", parecem justificar determinadas posturas e pensamentos tais como “não faz mal ninguém brincar com o meu filho, ele está sempre a jogar computador”, “ele fica entretido enquanto eu não chego, e, mesmo quando já estou em casa, está sempre a jogar”, legitimando um tipo de abandono particular das sociedades desenvolvidas (?), mas humano.
Parece que o Glamour não passa pela alma, nem pelas cores internas com que ela se possa vestir. Passa por cada um descobrir o colorido Floribella idiossincrático, quando isso ainda é possível, para ir adquiri-lo a um shopping, daqueles que há muitos, e que são todos diferentes uns dos outros, fazendo de contas… sem fazer de contas. Consumindo sem conhecer… Querendo sem crer, no que vai por dentro…