domingo, outubro 08, 2006

Le miroir en compagnie de la mémoire

Cheguei ao meu porto de abrigo. O sentimento é de pertença, de encontro, como um barco que ruma com o seu sistema gps ligado, que não está à deriva, e lança amarras em local seguro.

O tempo passa. "Já lá vão 8 anos", alguém afirma. Mas o tempo faz parte de mim, penso. Assim como todas aquelas pessoas importantes que ficam bem dentro, lá dentro, na caixinha dos meus afectos. Os sons mudaram, um pouco. Os cheiros mantêm-se. Reencontro sorrisos de algumas pessoas. Outros sorrisos perderam-se, provavelmente - ou não - para sempre.

E, nessas alturas, entre o bar da praia, o bar do cinema, o bar do snooker, o bar do inglês, o bar do Sr. João, figuram-se, em jeito de imagens mentais, recordações e evocações de um passado distante mas familiar. Mémoires.

Já passaram alguns anos desde que decidi partir.

O espelho da memória... Le miroir en compagnie de la mémoire... Dance with me. Encontro-me. Reconheço-me. Em mim, nos outros que me fazem cantar alegremente num lugar qualquer, meu, deles, do mundo - com essas pessoas queridas que nos podem quase compreender (Freud afirmou um dia, aos setenta anos, que uma das coisas que o deixavam contente com a vida era o facto de ter conhecido algumas pessoas que quase o compreenderam...) porque a natureza do que sentimos é profundamente íntima.

O teu mundo? O meu mundo? Os nossos mundos?
São pedaços de intimidade partilhada.
A alegria talvez seja a ilusão real de que essa quase compreensão, esse encontro provido e recheado de imperfeição, providencia o sentido do(s) caminho(s) que cada um, de si próprio para si próprio, acolhendo alguns outros, os seus queridos, pode e deve trilhar.

Então, encontramo-nos nos lugares de sempre? Naqueles locais onde o amor se transforma em vida, em experiência humana, em desejo, em amizade, que permite os risos, a intimidade, as lágrimas partilhadas, de alegria ou de tristeza, mas onde também há lugar para as zangas e as irritações? Espero que sim.

Deste modo, clamo um "até à próxima", seguro de um "até sempre", àqueles que comigo têm estado nesses lugares...

sexta-feira, outubro 06, 2006

Em toda a parte


a distancia é um fogo onde vou chegar num abraço fechado para te levar por campos abertos por onde puder levar-te por dentro para não te perder nem com mil tormentas que arrasem o mundo em qualquer lado onde quer que eu vá levo no corpo o desejo de te abraçar em toda a parte onde quer que o sonho me leve hei-de lembrar-me de ti por outros caminhos hei-de vaguear num abraço fechado para te levar e há uma canção que um dia aprendi eu hei-de cantá-la a pensar em ti em qualquer lado onde quer que eu vá levo no corpo o desejo de te abraçar em toda a parte onde quer que o sonho me leve hei-de lembrar-me de ti
Mafalda Veiga, 1986