quarta-feira, setembro 27, 2006

O tanque

Eram de madeira as escadas que nos levavam para o sótão. No jardim, o tanque, que se transformava em piscina, enchia-se quando o vento soprava e fazia girar o moinho.

Nós passeávamos, às escondidas, entre a recolha de brinquedos de lata - que não eram do nosso tempo e que estavam em sacos de plástico negros no sótão - e os mergulhos na piscina, nas tentativas de escapar à apanha da batata. Dos brinquedos, recordo-me de uma carrinha Volkswagen daquelas que agora os hippies - os que ainda resistem - conduzem pelas estradas do Alentejo e de um desportivo vermelho, que no meu imaginário nos poderia levar, com estilo, para longe dali. Nesse sentido, o longe era perto, como no filme 98 octanas...

Havia um casal de velhotes. A senhora tinha o costume de cozinhar. Avivam-se as memórias: os meus primeiros caracóis, partilhados com pessoas que vinham do campo ou da construção... a dobrada... Comidas de algum modo exóticas para um menino de cidade... O velhote era um senhor daqueles presente ausente.

Recordo-me também de umas estranhas idas ao caixote do lixo, as quais nunca entendi... Encontrávamos coisas engraçadas: uma bola de ténis, um estojo, segmentos de bonecos. Uma vez até encontrámos um boneco inteiro - seria o snoppy? A minha ideia é que talvez ali fosse o local onde o pai natal dos pobres deixaria os seus presentes... Os velhotes levavam-nos de carro até lá... Vínhamos de avião, se no caixote tivéssemos encontrado asas...

Final de tarde, o tanque de betão chamava de novo. Íamos para lá. A água estava quase sempre fria. Às escondidas mergulhávamos. "Vão descobrir que andámos de novo por aqui", pensávamos. No final de contas, era impossível chegarmos secos à casa.

"Onde é que tu andaste? Já te disse que não te quero sozinho no tanque!"

(silêncios...)

A verdade é que ainda hoje me pergunto como era possível que nunca tivessem entendido que andava acompanhado pela minha solidão...

sexta-feira, setembro 22, 2006

amigos para as boas ocasiões

Pois é. A vida prega-nos partidas. Há amigos para as boas ocasiões, normalmente mais do que muitos... para as más, menos, mas também os há :).
Então, mas o que é que acontece quando há aqueles bons amigos que estão presentes somente nas más ocasiões? A sensação não é completamente satisfatória...