quarta-feira, maio 17, 2006

Caminhos

Há uns anos atrás contaram-nos que nem sempre o melhor caminho a seguir era feito de asfalto. Diziam-nos então que se fossemos pela berma da estrada, ainda que pudessemos levar mais tempo, poderíamos encontrar flores e outras surpresas afins. Mais tarde falaram-nos em pó de estrelas. Hoje guardamos esses pensamentos.
Ontem reencontramo-los e sorrimos.
A berma de que nos falaram é, para nós, uma casa abrigo especial de momentos, afectos, partilha, encontros... Enfim, vivências floridas mais ou menos imperfeitas onde podemos dizer que fomos/somos/seremos felizes. Ser, o verbo. A palavra expressa na direcção de um sentido faz toda a diferença.

Na dança, por exemplo, o que se é? O que se faz? Sonha-se? Existe-se apenas? Respira-se o tão desejado pó de estrelas? Acontecerá o cruzamento do homem e da mulher com a cultura, o terceiro? Registar-se-á, num passo bailado, a assinatura individual e colectiva de pertença a um elemento libertador e integrativo partilhado transcontinentalmente? Será que se reavivam os momentos ritmados de encontro da relação precoce? Será que, catarticamente, dançar nos torna mais fortes? Será que é o diálogo/vínculo de quem sonha, de quem vive, que impera? Porque se sente. Há algo transcendental ou, talvez, essencialmente simples... Quase divino. Lembro Fernando Pessoa “Deus quer” - o transcendente; “o Homem sonha”, “o sonho comanda a vida” de António Gedeão - o desejo/encontro na autenticidade; “a Obra nasce”. Toda a Obra. A mais importante de todas: a que se guarda no coração de cada um de nós. Ninguém morre sozinho, afirma Daniel Sampaio. Ninguém vive sozinho, acrescentamos.

domingo, maio 14, 2006

Redundâncias cíclicas

Mais um domingo. Dia de balanço.
Copio um filme para o computador. Surpreendentemente ou não, a cópia não se efectua. O processo é interrompido pela existência de um erro. Especificação do mesmo: erro de redundância cíclica.
Pois é, nas nossas vidas, nas suas dramatizações mais ou menos histéricas em jeito de teatro, nas suas películas a cores e/ou a preto e branco e nos respectivos guiões que as acompanham encontramos muitos vezes a existência de erros por redundâncias cíclicas. Ora "tudo o que não se resolve repete-se", terá dito Freud - escutei eu através das palavras de um outro... Até nos computadores... um ficheiro copiado com erro, ou seja, mal integrado, quando se pretende a sua reprodução ou utilização de uma parte de si, acontece aquilo a que se chama um erro de tradução que, por sua vez, poderá desencadear uma repetição do encalha. Isto é, aquele que repete ciclicamente e redundantemente o mesmo agir e/ou procedimento de forma ineficaz... Ora o que acontece é que não podemos integrar nos dias de hoje aquela informação com a linguagem de hoje, transformando, no ser humano, experiência e emoção em pensamento. O erro porque passado, da linguagem do ontem e não resolvido, compele ao encrava no hoje... Seguimos Amaral Dias relativamente à questão do recalcamento. Lendo Freud e actualizando o seu texto de 1915 sobre a Repressão, Amaral Dias considera o recalcamento como uma falha de tradução entre camadas mnésicas de situações análogas, entre algo que se passou num determinado momento da vida e algo de semelhante que se passou noutro momento, mantendo a linguagem do ontem no hoje.
De forma pesada talvez, Pedro Paixão escreve em "Nos teus braços morreríamos" que "o passado persegue-nos até à morte". Uma visão do passado como objecto persecutório que gera ameaça, talvez até invocando um sofrimento, uma dor mental intolerável, muito difícil de metabolizar. As linguagens do ontem, mais as linguagens do hoje, anexas às linguagens das relações actuais com os padrões guardados das relações passadas são trazidas ao presente. Deparamo-nos pois, por vezes, subitamente com a constatação de que a capacidade de viver boas experiências e de dotação de sentido do vivido se coloca como uma espécie de realidade frágil e efémera...
Passamos então para a procura de um presente que tolere a linguagem do passado e as suas interferências, as suas rasteiras de regressão e/ou fixação. Abrimos os braços e o coração a pequenas luzes que prometem transformação. Orientamo-nos para um crescimento com aqueles que nos permitem ser somente nós, deixando cada vez mais, aos poucos, cair a máscara difusa e castradora tão útil quando nociva que insistimos em carregar... Crescemos. Aprendemos. Tropeçamos, mas conseguimos evitar as redundâncias cíclicas, pelo menos as mais destrutivas. Parece no entanto que, no momento seguinte, se fica meio perdido... É que o simples nem sempre foi aprendido. Neste sentido, a passagem da coisa à palavra é temida. É bloqueada ao mesmo tempo que desejada. É adiado o mental em detrimento do protomental... Fica qualquer coisa de intermédio à espera de dias melhores...

sexta-feira, maio 12, 2006

Imagino-te por aí... longe... suspensa... parada no tempo... "Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar"... Sentada numa praça europeia qualquer... a Praça do panteão em Roma. Sim, estás aí. Afinal encontraste-te. Eu também. Disto do teu modo contudo. Separadamente juntos.
Olho para os arranha-céus que circundam a esplanada do meu pensamento. Guardo dentro de mim as cores, os sons, o ritmo dos passos dos personagens que se passeiam… Sonho e internalizo. Vivo. Sinto. Bate o coração…

quarta-feira, maio 10, 2006

Eros e Psiquê


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Fernando Pessoa

terça-feira, maio 02, 2006

Estranha forma de vida

O dia a dia nem sempre é fácil. Quebram-se resistências, procuram-se balões de oxigénio ou então, pelo menos, tão somente o sentido das vivências com que nos deparamos no quotidiano. Às vezes parece que nos sentimos perdidos. Noutros momentos encontramo-nos. Revemo-nos nas pessoas que amamos, num livro qualquer que preenche um bocadinho mais por dentro, numa peça de teatro onde, subitamente, quase sem nos apercebermos, damos por nós como actores principais, revivendo e reactualizando os enredos das nossas próprias histórias. Em certas alturas, ainda que possamos não estar sozinhos, sentimo-nos desamparados e, consequentemente, até desorganizados. Ficamos assustados. Recuamos perante tais sentimentos. Fechamo-nos de nós para nós. Para o outro também. Temos um objectivo apenas: o da funcionalidade. Ficamos confusos porque o que está dentro vai ficando isolado, inacessível. Tornamo-nos cada vez mais normais, mas cada vez menos realizáveis enquanto seres únicos e contributivos para a evolução criativa da humanidade. Deparamo-nos com um dos maiores obstáculos, se não o maior da vida psíquica: a recusa da capacidade de pensar os pensamentos. A rigidez de um tipo de pensamento concreto, factual e limitado parece ligar-se a uma fria pseudo-emocionalidade. Esta, vivida com medo da perda do controlo e disfarçada pela ilusão/satisfação per consumo, atinge um número crescente de pessoas. Constatamos, pois, com preocupação, que o humano enquanto ser reflexivo, aberto à experiência e aos pensamentos parece estar inscrito cada vez mais numa estranha forma de vida...