sexta-feira, março 17, 2006

Desejos


Tenho dado por mim a pensar nesta questão: afinal o que é que desejamos?
Uma casa, um carro, um ou dois putos, uma bonita mulher? Que os sonhos se tornem realidade? Que a realidade se transforme em conteúdo onírico, esse por sua vez passível de ser transformado e de ser reparador - a palavra é bastante curiosa: repara a dor - dos acontecimentos perturbadores e dolorosos que se vivenciam/vivenciaram?
Afinal o que é o desejo? E o desejo de vida? Será a capacidade de ter boas experiências como alguém disse? Será a vontade de vinculação? Será a vontade de procriação, querendo com isso significar a capacidade de gerar criativamente coisas vindas de dentro? Será o desejo de vida uma porta para o contentamento? Será de vida o desejo de afectos, de comunicação, de partilha, de entendimento, de poder expressar as zangas e as dores num ombro amigo? Será de vida o desejo de crescimento interno firmado numa relação terapêutica?
Sim, um desejo de vida viva, plena, que não nega as suas partes mortas, onde aprendemos a sorrir quando realmente estamos alegres e a chorar quando efectivamente estamos tristes. Parece simples...

quinta-feira, março 02, 2006

A ilusão da abundância

O preenchimento a baixo custo parece ser um dos grandes objectivos da nossa era. Até no que à ingestão de alimento concerne.
Curiosamente, encontramos nas classes sociais mais desfavorecidas as maiores taxas de obesidade. Um dos factores que para tal parece contribuir é o baixo custo das ditas comidas não saudáveis, hiper-calóricas e pouco nutritivas. Ainda assim, parece-nos que um corpo “animado” por estes alimentos se pode constituir como uma forma de ostentação da não necessidade, como se finalmente alguns dos ditos "pobres" deixassem de viver tão miseravelmente - “eu não passo fome”, “Eu tenho dinheiro para dar de comer a mim e aos meus filhos”. Se nos parece algo perverso? Sim, mas a sociedade assim o estimula.
Ao limitar a liberdade individual ao fócus do consumo com vista a um (pseudo) preenchimento externo e também interno(!) ficámos com um mar de coisas, de objectos materiais à nossa volta que nos preenchem... Mas preenchem? A nós parece-nos que esta espécie de coleccionar cromos em múltiplas cadernetas na ânsia de nos realizarmos com valores meramente materiais é de todo muito pouco saudável. Saúde precisa-se!
O preenchimento consumista parece culminar então numa via de mortificação e aparentemente paradoxal: “estamos tão cheios de coisas vazias” e destrutivas... Assim são as comidas gordas de rápida absorção pelo organismo, os “fast-fritos”... ou o não afecto da televisão, a não possibilidade de viver a experiência e aprender com esta. Os produtos de hoje, alimentícios mas não só, são de absorção veloz e providenciam uma satisfação volátil. Colocam-se nas prateleiras do supermercado, nas imagens bonitas dos ecrãs e nos restaurantes decorados de forma prática e atractiva os meios para um agido, um acting-out que ganha consistência, por vezes, numa espécie de embriaguez (aparentemente) lúcida de calorias e produtos... Tapa-se um buraco interno psico-socialmente nutrido e regido? Come! Consome!
Os alertas são anunciados muitas vezes em silêncio: “Sinto-me cheio. Dali a pouco estou novamente vazio. Vou ver televisão para me distrair. Lá fora o mundo assusta. Não sei como crescer e me individuar dos meus pais. Não sei ainda ser pessoa. O meu corpo até parece que fala por mim.” Por vezes, os pais ficam descansados na impotência de questionar as influências consumistas e de como estas podem afectar as nossas vidas... Talvez eles também se sintam vazios e culpados. Mas enfim, tudo isto nos preocupa. Vivemos numa sociedade de objecto mercado, cada vez menos pensada e de atribuição do irrelevante ao objecto simbólico. O valor económico parece sobrepor-se às relações, aos afectos e ao pensamento... E agora?