sábado, dezembro 16, 2006

"Eu não sei tanto sobre tanta coisa".

Sei que chegou o inverno, o frio, a chuva, e a geada.
Sei que o Natal está quase aí. Presentes. Alguns ausentes.
Sei que continuo num caminho por mim construído, mas não sei onde vou parar.
Sei que conduzo os meus destinos entre sabores e dissabores.
Sei que conheço cores e pretos e brancos, sonhos cálidos e alguns perturbadores.
Sei que sinto vontade de nomear quase todo o meu mundo, o interno e o externo.
Sei que sem sempre sei fazer isso.
Sei que gosto de ti...

quarta-feira, novembro 22, 2006

Optimista céptico

Eu já estou farto das fotografias
que me querem vender todos os dias
os legionários mais os seus troféus
no chão a sangrar

Não posso mais olhar para aquela imagem
parece que é sempre a mesma paisagem
a hipocrisia deste novo império
faz-me vomitar

Por isso eu tornei-me um optimista céptico
não sou bem igual ao céptico opti-místico
só quero encontrar paz
sem arrastar atrás nem mestre nem Deus

Já temos a informação cruzada
empacotada e globalizada
agora só nos falta a convicção
para acreditar

Há assassinos que não se arrependem
há tantos pensadores que nunca aprendem
e há quem insista sempre em aprender
mas não quer pensar

Por isso eu tornei-me um optimista céptico...
Gostava de ser ecologista exótico

sem perder de vista o meu perfil erótico
Ainda vou ser ilusionista crónico

um mestre da fuga, um mago supersónico

(Jorge Palma)

domingo, outubro 08, 2006

Le miroir en compagnie de la mémoire

Cheguei ao meu porto de abrigo. O sentimento é de pertença, de encontro, como um barco que ruma com o seu sistema gps ligado, que não está à deriva, e lança amarras em local seguro.

O tempo passa. "Já lá vão 8 anos", alguém afirma. Mas o tempo faz parte de mim, penso. Assim como todas aquelas pessoas importantes que ficam bem dentro, lá dentro, na caixinha dos meus afectos. Os sons mudaram, um pouco. Os cheiros mantêm-se. Reencontro sorrisos de algumas pessoas. Outros sorrisos perderam-se, provavelmente - ou não - para sempre.

E, nessas alturas, entre o bar da praia, o bar do cinema, o bar do snooker, o bar do inglês, o bar do Sr. João, figuram-se, em jeito de imagens mentais, recordações e evocações de um passado distante mas familiar. Mémoires.

Já passaram alguns anos desde que decidi partir.

O espelho da memória... Le miroir en compagnie de la mémoire... Dance with me. Encontro-me. Reconheço-me. Em mim, nos outros que me fazem cantar alegremente num lugar qualquer, meu, deles, do mundo - com essas pessoas queridas que nos podem quase compreender (Freud afirmou um dia, aos setenta anos, que uma das coisas que o deixavam contente com a vida era o facto de ter conhecido algumas pessoas que quase o compreenderam...) porque a natureza do que sentimos é profundamente íntima.

O teu mundo? O meu mundo? Os nossos mundos?
São pedaços de intimidade partilhada.
A alegria talvez seja a ilusão real de que essa quase compreensão, esse encontro provido e recheado de imperfeição, providencia o sentido do(s) caminho(s) que cada um, de si próprio para si próprio, acolhendo alguns outros, os seus queridos, pode e deve trilhar.

Então, encontramo-nos nos lugares de sempre? Naqueles locais onde o amor se transforma em vida, em experiência humana, em desejo, em amizade, que permite os risos, a intimidade, as lágrimas partilhadas, de alegria ou de tristeza, mas onde também há lugar para as zangas e as irritações? Espero que sim.

Deste modo, clamo um "até à próxima", seguro de um "até sempre", àqueles que comigo têm estado nesses lugares...

sexta-feira, outubro 06, 2006

Em toda a parte


a distancia é um fogo onde vou chegar num abraço fechado para te levar por campos abertos por onde puder levar-te por dentro para não te perder nem com mil tormentas que arrasem o mundo em qualquer lado onde quer que eu vá levo no corpo o desejo de te abraçar em toda a parte onde quer que o sonho me leve hei-de lembrar-me de ti por outros caminhos hei-de vaguear num abraço fechado para te levar e há uma canção que um dia aprendi eu hei-de cantá-la a pensar em ti em qualquer lado onde quer que eu vá levo no corpo o desejo de te abraçar em toda a parte onde quer que o sonho me leve hei-de lembrar-me de ti
Mafalda Veiga, 1986

quarta-feira, setembro 27, 2006

O tanque

Eram de madeira as escadas que nos levavam para o sótão. No jardim, o tanque, que se transformava em piscina, enchia-se quando o vento soprava e fazia girar o moinho.

Nós passeávamos, às escondidas, entre a recolha de brinquedos de lata - que não eram do nosso tempo e que estavam em sacos de plástico negros no sótão - e os mergulhos na piscina, nas tentativas de escapar à apanha da batata. Dos brinquedos, recordo-me de uma carrinha Volkswagen daquelas que agora os hippies - os que ainda resistem - conduzem pelas estradas do Alentejo e de um desportivo vermelho, que no meu imaginário nos poderia levar, com estilo, para longe dali. Nesse sentido, o longe era perto, como no filme 98 octanas...

Havia um casal de velhotes. A senhora tinha o costume de cozinhar. Avivam-se as memórias: os meus primeiros caracóis, partilhados com pessoas que vinham do campo ou da construção... a dobrada... Comidas de algum modo exóticas para um menino de cidade... O velhote era um senhor daqueles presente ausente.

Recordo-me também de umas estranhas idas ao caixote do lixo, as quais nunca entendi... Encontrávamos coisas engraçadas: uma bola de ténis, um estojo, segmentos de bonecos. Uma vez até encontrámos um boneco inteiro - seria o snoppy? A minha ideia é que talvez ali fosse o local onde o pai natal dos pobres deixaria os seus presentes... Os velhotes levavam-nos de carro até lá... Vínhamos de avião, se no caixote tivéssemos encontrado asas...

Final de tarde, o tanque de betão chamava de novo. Íamos para lá. A água estava quase sempre fria. Às escondidas mergulhávamos. "Vão descobrir que andámos de novo por aqui", pensávamos. No final de contas, era impossível chegarmos secos à casa.

"Onde é que tu andaste? Já te disse que não te quero sozinho no tanque!"

(silêncios...)

A verdade é que ainda hoje me pergunto como era possível que nunca tivessem entendido que andava acompanhado pela minha solidão...

sexta-feira, setembro 22, 2006

amigos para as boas ocasiões

Pois é. A vida prega-nos partidas. Há amigos para as boas ocasiões, normalmente mais do que muitos... para as más, menos, mas também os há :).
Então, mas o que é que acontece quando há aqueles bons amigos que estão presentes somente nas más ocasiões? A sensação não é completamente satisfatória...

quarta-feira, agosto 30, 2006

Amores perfeitos

Passeio nas ruas. Reparo nalguns canteiros floridos que se deixam repousar indiferentes a quem passa junto deles. São amores perfeitos - quem é que se terá lembrado de nomear estas flores desse modo? São seres vivos embelezantes, da terra, da berma da estrada, da esplanada de um café central. Não têm ouvidos ou nariz, nem tão pouco boca. Se tivessem talvez pudessem partilhar connosco as mil e duas tardes (talvez menos, porque entretanto há flores que morrem e dão lugar a outras) de conversas, de sonoridades, de odores, de vento, de maresia, a que já assistiram. Se tivessem aparelho digestivo talvez pudessem estar connosco à mesa de um restaurante comendo, saboreando e partilhando satisfações. Se tivessem membros poderiam dançar connosco e passear com os pés descalços assentes na areia, como se de uma massagem esfoliante a eles se tratasse. Se tivessem pensamento poderiam ter a consciência do quão bom é poder dizer, a alguém que nos deixa os lábios em sorriso, "bom dia", "boa tarde", "boa noite", "boa sorte", "bons sonhos", "boa caminhada", "boa viagem", "bom trabalho", "bom regresso", "bom passeio", "bom apetite"...
Felizmente não somos flores. Temos sentidos e instrumentos para abraçar o mundo de maneira diferente daquela dos habitantes floridos. Com o corpo animado (anima vem do grego e significa alma) pelos seus ritmos, emoções e pensamentos...

terça-feira, agosto 08, 2006

Destinos

Recupero pensamentos. Sorrio. Deixo-me tocar por uma boa saudade. Apetece-me, pois, partilhar algumas das imagens desse meu pensar...






sexta-feira, julho 14, 2006

A viagem continua

A viagem continua.
A da vida pois claro. E ainda bem.
As experiências sucedem-se a ritmos nem sempre marcados pelo mesmo tempo. É bom que seja assim.
De partida?
Sim, para mais um dia de trabalho. A tão famigerada rotina, apregoada paradoxalmente pela maior parte dos comuns - pelo menos por aqueles que conheço.
Estou em contagem decrescente. A experiência que se avizinha é laboral por excelência, ainda que os sinais envolventes me orientem para sentir o ar fresco do mar, numa bela tarde de praia, desfrutando de um entardecer partilhado com personagens especiais. Sim, personagens.
De um determinado ponto de vista assim o considero. Somos objectos reais que se relacionam uns com uns outros, beneficiando ou não das respectivas tramas individuais. Portanto, todos servimos e somos servidos, uns para os outros, de um modo naturalmente egocêntrico, em busca de satisfação, realização ou de repetição do conhecido, seja ele saudável ou não...
A viagem assim continua idiossincraticamente.
Em moradas distintas, experiências diversas ou da mesma natureza podem ocorrer. Desejos e fantasias, tantas vezes transformadas em inertes pedaços de quotidiano, esforçam-se por encontrar o seu potencial de acção em nossas realidades. O erotismo, o encontro amoroso, a amizade, o entusiasmo, a partilha de sensações, as necessidades de amparo, a troca, o afecto, a curiosidade, o desejo de preenchimento, a alegria da entrega... Mesmo entre rivalidades e também desencontros, porque sim, naturalmente, a vivência com menor preconceito e maior autenticidade resulta numa maior qualidade de vida.
Mas quem terá inventado o cinzento? A normalidade enfadonha? As restrições criativas à espontaneidade individual?
Independentemente de outras possíveis respostas, a meu ver, o principal obstáculo está dentro de nós. Assim, só trilhando um caminho de progressiva despressurização interna e de compreensão poderemos chegar ao verdadeiro outro e, claro, a nós próprios. Crescendo, sentindo e aprendendo que a vida é mais rica que as histórias de encantar... e ainda bem!

quarta-feira, julho 12, 2006

Ci vuole un fisico bestiale

Ci vuole un fisico speciale
per fare quello che ti pare
perché di solito a nessuno
vai bene così come sei
Tu che cercavi comprensione sai
ti trovi lì in competizione sai



Ci vuole un fisico bestiale
per resistere agli urti della vita
a quel che leggi sul giornale
e certe volte anche alla sfiga



Ci vuole un fisico bestiale sai, speciale sai
anche per bere e per fumare

Ci vuole un fisico bestiale
perché siamo sempre ad un incrocio
sinistra, destra oppure dritto
il fatto è che è sempre un rischio

Ci vuole un attimo di pace
di fare quello che ci piace

E come dicono i proverbi
e lo dice anche mio zio
mente sana in corpo sano
e adesso son convinto anch'io

Ci vuole molto allenamento
per stare dritti controvento

Ci vuole un fisico bestiale
per stare nel mondo dei grandi
e poi trovarsi a certe cene
con tipi furbi ed arroganti

Ci vuole un fisico bestiale sai, speciale sai
può anche fare molto male sai

Ci vuole un fisico bestiale

il mondo è un grande ospedale
e siamo tutti un po' malati
ma siamo anche un po' dottori

E siamo tutti molto ignoranti sai
ma siamo anche un po' insegnanti sai

Ci vuole un fisico bestiale ...
perché siam barche in mezzo al mare


Luca Carboni, 1992

sexta-feira, junho 23, 2006

Espécie de Vampiro

"Eu não sou quem tu desejas
Eu não sou aquele que beijas
Sou um mero pesadelo ou fantasia
Eu sou muito mais que velho
Intimido qualquer espelho
Sou o amigo mais funesto da poesia
Sou um tipo de morcego
Que é completamente cego
Embora às vezes seja fã do Fritz Lang

Sou uma espécie de vampiro
E quando sobre ti me atiro
É para saborear um pouco do teu sangue
Só para beber gota a gota o teu sangue

Tu não sabes donde venho
Dás conversa a qualquer estranho
E ainda vais beijar-me os lábios docemente
Não confias nos teus pais
E acreditas que os jornais
Só relatam as verdades de outras gentes
Sou um tipo de morcego..."


Jorge Palma

quarta-feira, maio 17, 2006

Caminhos

Há uns anos atrás contaram-nos que nem sempre o melhor caminho a seguir era feito de asfalto. Diziam-nos então que se fossemos pela berma da estrada, ainda que pudessemos levar mais tempo, poderíamos encontrar flores e outras surpresas afins. Mais tarde falaram-nos em pó de estrelas. Hoje guardamos esses pensamentos.
Ontem reencontramo-los e sorrimos.
A berma de que nos falaram é, para nós, uma casa abrigo especial de momentos, afectos, partilha, encontros... Enfim, vivências floridas mais ou menos imperfeitas onde podemos dizer que fomos/somos/seremos felizes. Ser, o verbo. A palavra expressa na direcção de um sentido faz toda a diferença.

Na dança, por exemplo, o que se é? O que se faz? Sonha-se? Existe-se apenas? Respira-se o tão desejado pó de estrelas? Acontecerá o cruzamento do homem e da mulher com a cultura, o terceiro? Registar-se-á, num passo bailado, a assinatura individual e colectiva de pertença a um elemento libertador e integrativo partilhado transcontinentalmente? Será que se reavivam os momentos ritmados de encontro da relação precoce? Será que, catarticamente, dançar nos torna mais fortes? Será que é o diálogo/vínculo de quem sonha, de quem vive, que impera? Porque se sente. Há algo transcendental ou, talvez, essencialmente simples... Quase divino. Lembro Fernando Pessoa “Deus quer” - o transcendente; “o Homem sonha”, “o sonho comanda a vida” de António Gedeão - o desejo/encontro na autenticidade; “a Obra nasce”. Toda a Obra. A mais importante de todas: a que se guarda no coração de cada um de nós. Ninguém morre sozinho, afirma Daniel Sampaio. Ninguém vive sozinho, acrescentamos.

domingo, maio 14, 2006

Redundâncias cíclicas

Mais um domingo. Dia de balanço.
Copio um filme para o computador. Surpreendentemente ou não, a cópia não se efectua. O processo é interrompido pela existência de um erro. Especificação do mesmo: erro de redundância cíclica.
Pois é, nas nossas vidas, nas suas dramatizações mais ou menos histéricas em jeito de teatro, nas suas películas a cores e/ou a preto e branco e nos respectivos guiões que as acompanham encontramos muitos vezes a existência de erros por redundâncias cíclicas. Ora "tudo o que não se resolve repete-se", terá dito Freud - escutei eu através das palavras de um outro... Até nos computadores... um ficheiro copiado com erro, ou seja, mal integrado, quando se pretende a sua reprodução ou utilização de uma parte de si, acontece aquilo a que se chama um erro de tradução que, por sua vez, poderá desencadear uma repetição do encalha. Isto é, aquele que repete ciclicamente e redundantemente o mesmo agir e/ou procedimento de forma ineficaz... Ora o que acontece é que não podemos integrar nos dias de hoje aquela informação com a linguagem de hoje, transformando, no ser humano, experiência e emoção em pensamento. O erro porque passado, da linguagem do ontem e não resolvido, compele ao encrava no hoje... Seguimos Amaral Dias relativamente à questão do recalcamento. Lendo Freud e actualizando o seu texto de 1915 sobre a Repressão, Amaral Dias considera o recalcamento como uma falha de tradução entre camadas mnésicas de situações análogas, entre algo que se passou num determinado momento da vida e algo de semelhante que se passou noutro momento, mantendo a linguagem do ontem no hoje.
De forma pesada talvez, Pedro Paixão escreve em "Nos teus braços morreríamos" que "o passado persegue-nos até à morte". Uma visão do passado como objecto persecutório que gera ameaça, talvez até invocando um sofrimento, uma dor mental intolerável, muito difícil de metabolizar. As linguagens do ontem, mais as linguagens do hoje, anexas às linguagens das relações actuais com os padrões guardados das relações passadas são trazidas ao presente. Deparamo-nos pois, por vezes, subitamente com a constatação de que a capacidade de viver boas experiências e de dotação de sentido do vivido se coloca como uma espécie de realidade frágil e efémera...
Passamos então para a procura de um presente que tolere a linguagem do passado e as suas interferências, as suas rasteiras de regressão e/ou fixação. Abrimos os braços e o coração a pequenas luzes que prometem transformação. Orientamo-nos para um crescimento com aqueles que nos permitem ser somente nós, deixando cada vez mais, aos poucos, cair a máscara difusa e castradora tão útil quando nociva que insistimos em carregar... Crescemos. Aprendemos. Tropeçamos, mas conseguimos evitar as redundâncias cíclicas, pelo menos as mais destrutivas. Parece no entanto que, no momento seguinte, se fica meio perdido... É que o simples nem sempre foi aprendido. Neste sentido, a passagem da coisa à palavra é temida. É bloqueada ao mesmo tempo que desejada. É adiado o mental em detrimento do protomental... Fica qualquer coisa de intermédio à espera de dias melhores...

sexta-feira, maio 12, 2006

Imagino-te por aí... longe... suspensa... parada no tempo... "Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar"... Sentada numa praça europeia qualquer... a Praça do panteão em Roma. Sim, estás aí. Afinal encontraste-te. Eu também. Disto do teu modo contudo. Separadamente juntos.
Olho para os arranha-céus que circundam a esplanada do meu pensamento. Guardo dentro de mim as cores, os sons, o ritmo dos passos dos personagens que se passeiam… Sonho e internalizo. Vivo. Sinto. Bate o coração…

quarta-feira, maio 10, 2006

Eros e Psiquê


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Fernando Pessoa

terça-feira, maio 02, 2006

Estranha forma de vida

O dia a dia nem sempre é fácil. Quebram-se resistências, procuram-se balões de oxigénio ou então, pelo menos, tão somente o sentido das vivências com que nos deparamos no quotidiano. Às vezes parece que nos sentimos perdidos. Noutros momentos encontramo-nos. Revemo-nos nas pessoas que amamos, num livro qualquer que preenche um bocadinho mais por dentro, numa peça de teatro onde, subitamente, quase sem nos apercebermos, damos por nós como actores principais, revivendo e reactualizando os enredos das nossas próprias histórias. Em certas alturas, ainda que possamos não estar sozinhos, sentimo-nos desamparados e, consequentemente, até desorganizados. Ficamos assustados. Recuamos perante tais sentimentos. Fechamo-nos de nós para nós. Para o outro também. Temos um objectivo apenas: o da funcionalidade. Ficamos confusos porque o que está dentro vai ficando isolado, inacessível. Tornamo-nos cada vez mais normais, mas cada vez menos realizáveis enquanto seres únicos e contributivos para a evolução criativa da humanidade. Deparamo-nos com um dos maiores obstáculos, se não o maior da vida psíquica: a recusa da capacidade de pensar os pensamentos. A rigidez de um tipo de pensamento concreto, factual e limitado parece ligar-se a uma fria pseudo-emocionalidade. Esta, vivida com medo da perda do controlo e disfarçada pela ilusão/satisfação per consumo, atinge um número crescente de pessoas. Constatamos, pois, com preocupação, que o humano enquanto ser reflexivo, aberto à experiência e aos pensamentos parece estar inscrito cada vez mais numa estranha forma de vida...

sexta-feira, março 17, 2006

Desejos


Tenho dado por mim a pensar nesta questão: afinal o que é que desejamos?
Uma casa, um carro, um ou dois putos, uma bonita mulher? Que os sonhos se tornem realidade? Que a realidade se transforme em conteúdo onírico, esse por sua vez passível de ser transformado e de ser reparador - a palavra é bastante curiosa: repara a dor - dos acontecimentos perturbadores e dolorosos que se vivenciam/vivenciaram?
Afinal o que é o desejo? E o desejo de vida? Será a capacidade de ter boas experiências como alguém disse? Será a vontade de vinculação? Será a vontade de procriação, querendo com isso significar a capacidade de gerar criativamente coisas vindas de dentro? Será o desejo de vida uma porta para o contentamento? Será de vida o desejo de afectos, de comunicação, de partilha, de entendimento, de poder expressar as zangas e as dores num ombro amigo? Será de vida o desejo de crescimento interno firmado numa relação terapêutica?
Sim, um desejo de vida viva, plena, que não nega as suas partes mortas, onde aprendemos a sorrir quando realmente estamos alegres e a chorar quando efectivamente estamos tristes. Parece simples...

quinta-feira, março 02, 2006

A ilusão da abundância

O preenchimento a baixo custo parece ser um dos grandes objectivos da nossa era. Até no que à ingestão de alimento concerne.
Curiosamente, encontramos nas classes sociais mais desfavorecidas as maiores taxas de obesidade. Um dos factores que para tal parece contribuir é o baixo custo das ditas comidas não saudáveis, hiper-calóricas e pouco nutritivas. Ainda assim, parece-nos que um corpo “animado” por estes alimentos se pode constituir como uma forma de ostentação da não necessidade, como se finalmente alguns dos ditos "pobres" deixassem de viver tão miseravelmente - “eu não passo fome”, “Eu tenho dinheiro para dar de comer a mim e aos meus filhos”. Se nos parece algo perverso? Sim, mas a sociedade assim o estimula.
Ao limitar a liberdade individual ao fócus do consumo com vista a um (pseudo) preenchimento externo e também interno(!) ficámos com um mar de coisas, de objectos materiais à nossa volta que nos preenchem... Mas preenchem? A nós parece-nos que esta espécie de coleccionar cromos em múltiplas cadernetas na ânsia de nos realizarmos com valores meramente materiais é de todo muito pouco saudável. Saúde precisa-se!
O preenchimento consumista parece culminar então numa via de mortificação e aparentemente paradoxal: “estamos tão cheios de coisas vazias” e destrutivas... Assim são as comidas gordas de rápida absorção pelo organismo, os “fast-fritos”... ou o não afecto da televisão, a não possibilidade de viver a experiência e aprender com esta. Os produtos de hoje, alimentícios mas não só, são de absorção veloz e providenciam uma satisfação volátil. Colocam-se nas prateleiras do supermercado, nas imagens bonitas dos ecrãs e nos restaurantes decorados de forma prática e atractiva os meios para um agido, um acting-out que ganha consistência, por vezes, numa espécie de embriaguez (aparentemente) lúcida de calorias e produtos... Tapa-se um buraco interno psico-socialmente nutrido e regido? Come! Consome!
Os alertas são anunciados muitas vezes em silêncio: “Sinto-me cheio. Dali a pouco estou novamente vazio. Vou ver televisão para me distrair. Lá fora o mundo assusta. Não sei como crescer e me individuar dos meus pais. Não sei ainda ser pessoa. O meu corpo até parece que fala por mim.” Por vezes, os pais ficam descansados na impotência de questionar as influências consumistas e de como estas podem afectar as nossas vidas... Talvez eles também se sintam vazios e culpados. Mas enfim, tudo isto nos preocupa. Vivemos numa sociedade de objecto mercado, cada vez menos pensada e de atribuição do irrelevante ao objecto simbólico. O valor económico parece sobrepor-se às relações, aos afectos e ao pensamento... E agora?

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Viagens, estrelas e jogos de vida

Por cada viagem vejo um céu. São estrelas espalhadas por aí.
Por cada aventura deixo-me levar em ventos e correntes coloridas.
São vidas, murmura um velho perdido numa rua da cidade.
Por cada estação observo expressões: pressa, expectativa, temor...
Por cada segredo respiro fundo e no aeroporto das relações deixo-me estar.
Paris, Londres, Budapeste? Qual o destino? Qual a saída?
São mil e duas possibilidades...
Por cada astro que espreita na torrente escura de uma noite qualquer. Anónima.
Penso em ti. Nos muitos ti's que andam calmamente no palco do dia a dia...
Água doce, salgada, amor e partilha de ritmos coordenados uns com os outros. Às vezes.
Madrid, Torino ou Bruxelas? Qual o rumo? Qual o número do voo?
São mil cento e vinte e quatro as opções possíveis.
Por cada hipótese que se joga aos dados e no tabuleiro de xadrez quotidiano, perdem-se umas peças, ganham-se outras vezes de jogar. Encontra-se o desejo e a sua concretização, diferida ou não, numa conjugação da rainha com o cavalo, do seis com o um (nos dados), dos ouros com as copas... Vamos jogando, sempre vivendo...
No final saberemos se terá valido a pena.