quarta-feira, setembro 28, 2005

Ao dia mais banal do universo

Sem palavras
Para variar
Porque enfadonhas seriam.
Sem acordes
Ou sons de guitarras
De maltratar.

É dia, é chuva
É vento que rasga
A névoa que paira a teimar
Que não grita
Que não sente
Mas grita
Mas sente

E os dias passam
E os carros não param
E os comboios chegam
Cheios de gente apinhada a mais um estação -
Rossio
Que bela manhã!
O sol aparece
Parece que
Os astros cintilam
Só à noite enquanto

O tempo traz
Manjares perdidos
De locais onde os comuns mais que mortais
Se deixaram trespassar

Pelos focos
Pelas notas
Pelos ventos que rasgam
Pela névoa que paira a teimar
Que não grita
Que não sente
Mas grita
Mas sente

domingo, setembro 25, 2005

A Máquina Fotográfica

"É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água
água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boa nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.
Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.
Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contrastada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.
Moras aonde eu sei.
É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a vista
trago a minha tristeza a tiracolo.
Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays
the sun is shining
love.
Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.
Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sendo à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
dum novo continente itinerante."

José Carlos Ary dos Santos
Obra Poética
Lisboa, Edições Avante, 1994

domingo, setembro 18, 2005

Aquela janela

Sentada à beira de uma janela, Inês respira o ar que ali chega. Passam carros e outros transportes de maiores dimensões. Inês gostava de partir para um qualquer lugar mais azul.
Olha-se ao espelho. Pergunta quem é. Não sabe bem, mas quer ser mulher.
Penteia os seus cabelos, ora com desprezo, ora com amor... Também é assim que se entrega. Fechada.
Quando se deita, enrola-se entre os lençóis e as almofadas, acalmando (ou abafando) pensamentos de jornadas quiçá monotónas e aprisionantes. Sente-se só. Como quase sempre.
Acorda a meio da noite. Levanta-se. Senta-se à beira da janela de todos os dias (mas porquê que tem de ser a mesma janela?), às vezes de madrugada. Passa um mendigo, uma puta ou outra. Inês não se deixa prender, nem fascinar. Mas tem curiosidade, quando vê um carro parar e uma espécie de diálogo/negociata se estabelece.
Inês não sabe o que quer. Mas, a janela, ainda que a tranquilize e que lhe mostre parte do mundo, cansa-a. Ela quer partir, para um qualquer lugar mais azul.
Imagina apanhar um carro, sozinha, ou com mais algumas partes de "Ineses" que representem liberdade, vida, sonho, sexo... Pensa ganhar asas para voar, não como anjo, como mulher.
Aquela janela não deixava, e o ar que ali chegava não era suficiente.
As dúvidas de desejo de um mundo mais azul dissiparam-se. Inês partiu. Nunca mais adormeceu, nem como puta, nem como sem-abrigo, pelo menos perto da sua janela...
Um mundo mais azul e, provavelmente, com mais ar puro/fresco/diferente esperava por ela.
"Chegou a hora de partir", sussurou àquele mundo que a acompanhara e que agora era cinzento...
"Chegou a hora de partir", responde a janela, a cama, o sofá azul, os cortinados que voam ao vento - e que não podiam deixar o seu lugar... O espelho também responde, sentindo, desde logo, a falta dos olhares felizes, triste, de raiva, dos gritos surdos de Inês...

(I) a história co(n)tinua num mundo talv(ê)z mai(s) azul para ela...

sábado, setembro 17, 2005

Manhã

A música sai distorcida da coluna de som, enquanto a cortina se deixa levar ao vento.
Os dedos percorrem segredos esquecidos. A chuva não cai.
Contemplo, com tempo, os matizes coloridos encontrados no meio da rua. Não importa tanto o dia seguinte.
Encontro templos mais ou menos perdidos, até um pouco abandonados. São sagradas as histórias desses lugares.
Abraço, largo, partilho, sonho. Estou presente, vivo agora, presente, futuro, passado recente, presença ausente.

Saio de casa.

A manhã diz que o sol ainda não deixou de brilhar... mas o outono não se vai deixar ficar parado muito mais tempo. As ruas de sempre estão sossegadas. É verdade, é sábado. Passo em passo, volto-me para o lado habitual. Compro pão. Sorrio ou não sorrio para as pessoas que me atendem. "Cinco minutos" é quanto tenho de esperar. Não espero "dê-me o que tiver". Não quero o que não têm...

domingo, setembro 11, 2005

Coincidências

As coincidências são puro divertimento...
De quem?
Não faço ideia!
Os dias correm ao sabor do vento, do fogo, de sorrisos e tormentos, dignos da mais gigantesca tempestade...
E todos os dias a janela mágica mostra que a vida não acaba na porta da própria casa...
A vizinhança também importa!
Arejar, aquecer, ou, pura e simplesmente, perdermo-nos nos braços daqueles que nos abraçam ou que, no mais bonito gesto de espontaneidade, nos dão a mão...
As coincidências são puro divertimento...
Esboça-se um sorriso, dois ou três...
E todos os dias a janela mágica mostra que a vida não acaba na porta da própria casa...
Prepara-se uma saída arbitrariamente marcada. Não se pensa. Não se desenha à priori a rota, nem sequer importam as coordenadas...
E todos os dias a janela mágica mostra que a vida não acaba na porta da própria casa...
Deixamo-nos tocar pelos cheiros, pelos tons, pelas gotas de chuva... que trazem o cheiro de terra queimada...
Deixamo-nos tocar pelo outro, do lado de lá do espelho, aquele em quem nós nos revemos para além de nós...
E todos os dias a janela mágica mostra que a vida não acaba na porta da própria casa...
Café, álcool, cigarros, chá acompanham-nos ao longo de múltiplas jornadas de duração intermitente. Estão lá.
Estão lá outras essências de vida, do sonho, do desejo feito partilha, da ambiguidade explícita daqueles que a cultivam como forma de motor de relações infindáveis de bohemia...
Mais um gole de chá...
E sabemos que todos os dias a janela mágica mostra que a vida não acaba na porta da própria casa...
E nesses todos os dias, através da magia da janela, sabemos que as coincidências são puro divertimento...
Serão?