sexta-feira, maio 22, 2015

RIP maria da cruz

Filho,
Como é que hei de dizer-te? Alguém muito importante para o pai, a tua bisavó, partiu. Ela estava velhinha e o seu corpo, marcado pela vida, cedeu. Na verdade, parecia que, já antes, em momentos mais ou menos breves,  ela partia... Mas acabava por voltar. E sorria, ainda que distraída pelas coisas difíceis que foi aprendendo nestes últimos tempos. E sim, já escutava poucochinho, mas o seu rosto iluminava-se quando nos vislumbrava felizes. E assim sorriu muito por chegar a conhecer-te e ver-nos, a ti, a mim e à mãe, felizes. É bom quando as pessoas importantes para nós estão presentes e disponíveis para acolher aquilo que de mais precioso geramos com as nossas vidas. Mais vida e amor.

Querida,
Que bom que a conheceste e a quiseste sempre bem dentro de ti e pudeste sentir o carinho, muitas vezes discreto e subtil, que ela nos transmitiu. Ainda escutaste algumas histórias engraçadas da sua mocidade, dos desejos e mas também das contrariedades e adversidades. A nós, pelo menos a mim, parecia que as histórias vinham com uma aceitação do estranho, do confuso, e do que é triste e difícil mas precisa de ser cuidado - e a paciência que é necessária para ultrapassar, vencer e contornar obstáculos. As histórias que vinham enquanto ela se foi preparando para ir. A pena de quem ainda não viveu tudo aos 80 anos. Também conheceste-a na fragilidade. A minha avó, piratinha com uma perna imaginária, porque afinal a paciência tem limites e, às vezes, dói tanto dentro e fora que se deseja o alívio e a partida. Vimos-te assim, quebrada, destruída, desmembrada.

(E é doloroso quando vemos os alicerces de quem nos deu chão a não aguentar os violentos embates da vida. Mas levantaste-te da maneira que ainda era possível, e por isso estás de parabéns. Aprendi que o fim não vem quando certas coisas deixam de existir. Mas que dói, sempre. Mesmo quando se sobrevive. Eu já sabia e tu também, avó.)

Por agora avó, mesmo tendo partido, ainda estás dentro daqueles que te amaram, mais ou menos inteira, mais ou menos calorosa, mais ou menos distraída. Um dia, porém, como alguém me disse, seremos todos pó de estrelas, e tu também, meu filho. Mas, por agora, continuamos por cá. Aproveitemos, minha querida.
A estrela estará no céu a olhar por nós. 

RIP maria da cruz

quinta-feira, agosto 30, 2012

Ventos

Ventos, mares, odisseias de pensamento
Distantes da prosa dos dias
Volumes de livros esquecidos lá no alto
Da estante
Cheios de pó

Estrelas, ondas, luares de mágica inquietação
Inalcançáveis sem mapa de cruz
Não há tempo
Não se atrevam a pensar
Pare-se ou morra-se

Não vamos morrer!
Não queremos morrer!
Um outro sistema!
Um outro poema!

Tempestades, maremotos, centopeias de momentos
Presentes na prosa dos dias
Volumes de discos velhos de ouvir
Da estante
Cheios de pó

Estrelas, ondas, luares de mágica inquietação
Inalcançáveis sem mapa de cruz
Não há tempo
Não se atrevam a pensar
Pare-se ou morra-se

Não vamos morrer!
Não queremos morrer!
Um outro sistema!
Um outro poema!



quinta-feira, agosto 23, 2012

Um conjunto de tarefas distribuídas em pequenos papéis coloridos por todo o lado. Um desígnio de ser melhor, cada vez melhor, em cada uma delas. A perda de memória. O empobrecimento da visão. O medo disfarçado de fadiga. O passar do tempo vestido de auto-estrada interminável. O desejo de poder escolher o não viável. O respirar acelerado por andar um minuto. De minuto em minuto. De minuto em minuto. De minuto em minuto.

quarta-feira, agosto 22, 2012

A despedida

Falar debaixo de água, buscando múltiplas vias de comunicação, interlocutores vários, embora em quantidade reduzida, e influentes. A Sra. Dra. Sacha, o Sr. Cavaco e Silva, o amigo e psicólogo Afonso. A solidão, profunda, disfarçada pela companhia num mundo subaquático. O nada, travestido de ideia exuberante. A certeza da traição, a dúvida na confiança. O desligar do pouco que se mantinha conectado. Solicitam-se remendos para o irreparável.
A história é a de um homem, vivido, e a morrer, actualmente, numa pensão, numa zona em frente à estação de comboios. Ponto de chegadas e partidas, covil para os negócios e transacções de produtos da noite, envolvendo, entre outra gente, pessoas marcadas pela temporalidade da necessidade e da gratificação imediata. A pensão tinha bichos que se escondiam, conta este homem. Os bichos que lhe envenenaram o sangue. O sangue por sua vez, tendo em conta que está doente, tem-se deixado esvaziar. “Preciso de ir ao hospital buscar sangue novo para substituir este”. “Estou à espera que me venham buscar do hospital para me operarem”. Sempre à espera que alguém apareça para o cuidar. O homem, quase sem nome, tinha, segundo ele, a perna partida. Antes de falar debaixo de água, contudo, referia que o seu problema era na anca. Estaria, já naquele tempo, à espera de uma operação muito arriscada que envolveria a possibilidade de ficar sem conseguir andar. Estava, no entanto, disposto a correr esse risco. “Porque viver assim não vale a pena.” O homem F. (é estranho, mas não me apetece dar-lhe um nome fictício. Seria, para mim, doloroso. Sentir-me-ia a passar uma borracha nessa réstia da sua própria humanidade) andava de muletas. Vestia, frequentemente, uma t-shirt vermelha do instituto de socorros e náufragos. Os seus olhos, enquanto se deixam pousar, são castanhos e, parece, ainda levam ao coração (?). Tenho dúvidas, no entanto. O som do seu andar “Tac, Tac” corresponde ao bater da muleta, também ela sem protecção entre o metal da sua base e o chão. Se desse para ouvir um “Tic” entre aquele bater, diria que era o som de um relógio em contagem decrescente, “Tic Tac”, e que o homem F. aguardava, entre conversas debaixo de água e uma esperança delirante, que chegasse o comboio para o levar daqui. Diria que, pelo seu sofrimento e processo de desligamento, o comboio estava atrasado. O homem ia vivendo (morrendo). Da sua história, pouco sei. Humilde, no contacto. Fala de uma sobrinha por quem nutre algum afecto. Pouco mais. Antes de se transformar numa espécie de Aquaman, vivia numa casa partilhada por outras pessoas que terá transformado em objectos persecutórios. Acabou transferido para uma pensão. Às vezes, quando come, diz que a comida desaparece assim que a ingere e que não fica nada dentro de si. Vai almoçar a uma cantina social. Vagueia entre instituições de cuidados de forma alheada. Tem 45 anos de
tentativa de vida. Talvez esteja a ser consumido pelas consequências desta. Talvez se resigne a uma (des) existência precária. Talvez não haja solução. A dissolução das partes intactas da mente, tal e qual o método utilizado por um centro de abate de veículos com as peças de um automóvel em fim de vida, talvez surja como a única via de (tentar) remendar o irreparável, e prover a ilusão de que alguns daqueles bocados de mente ainda possam ser salvos… ou, simplesmente, possam ir morrendo, sentindo-se menos sós.


Solicitam-se remendos para o irreparável.

sexta-feira, julho 06, 2012

Não há

Complexos e complexidades. O paradoxo da aceitação/não aceitação. A integração do bom e do mau. Do frio e do quente. Da ilusão e do possível. Há momentos em que o estranho se torna familiar e o familiar é, sem dúvida, do mais estranho que existe. Palavras soltas. Momentos de tomada de consciência de teias familiares complexas. Espelhos distorcidos. Narciso. A pergunta para a qual se sabe a resposta. Só temos o que temos e mais não temos ainda que não estivesse longe a possibilidade de virmos a ter mas como não temos, não há.

quarta-feira, junho 13, 2012

trabalha-se muito

Sem muitas palavras para partilhar, mas tanto coisa dentro... O tempo de elaboração não é suficiente para conseguir escrever. Trabalha-se muito.

Mas não é sexta-feira. yé

Talvez num destes dias próximos a escrita ganhe ao cansaço...

terça-feira, maio 29, 2012

Em jeito de canção... (feliz)

Cara bonita
Cara linda
És quem eu amo

Cara bonita
Cara linda
És quem eu chamo

Cara bonita
Cara linda
Vamos fazer um filho
Cara bonita
Cara linda
Vamos fazer outro filho

Cara bonita
Cara linda
És quem eu quero

Cara bonita
Cara linda
És quem eu gosto

Cara bonita
Cara linda
Vamos fazer um filho
Cara bonita
Cara linda
Vamos fazer outro filho